É medonho, causa horror uma tempestade sobre o alto mar!
O vento sibilava, agudo e frio, por entre as enxarcias do navio. A embarcação rangia lugubremente no seu movimento vagoroso e desegual.
Era o mez de dezembro, aspero, severo, rigoroso!
Os membros confrangiam-se-nos, ao encarar tão luctuoso espectaculo; vacillava a imaginação, e a fé entibiava-se-nos poderosamente.
--Lastro ao mar!--gritava o capitão n'um tom rouquenho e cavernoso.
--Amaina, amaina essa escota!
E todos nós trabalhavamos com phrenesi espontaneo, e celeridade inaudita. A tripulação, quasi toda nua, era incansavel no seu incessante labutar. Não se ouvia uma queixa, um ruído sequer. Todos denunciavam o mais vigoroso esforço, a mais acrisolada virtude.
Apenas existia ali uma mulher com dois filhinhos achegados ao peito, que soltava de quando em quando um estridente e doloroso gemido, até que por fim cahiu de todo desfallecida. Era tamanho o perigo, que nenhum de nós ousou soccorrel-a em tão espinhosa attitude.
Pobre mãe! coitadinha!...
O vendaval abysmara-nos n'um precipicio inevitavel!