Brada-se a cada passo, clamei eu ha dias n'uma reunião, contra os bandos de mendigos, de vadios, de miseraveis, de analphabetos, que enxameiam, pelas ruas das grandes cidades, como se a culpa fosse d'elles, filhos espurios de uma sociedade madrasta. A culpa é toda nossa; a culpa é do egoismo collectivo. A vagabundagem, a mendicidade não se evita com a repressão, com as casas de correcção, com a esquadra policial. Evita-se e corrige-se com as casas de trabalho, com as colonias agricolas, com as créches, com escolas, como as nossas escolas liberaes e com asylos, como o Asylo de S. João.

A estas manifestações de amor, chama-se solidariedade, que póde resumir-se n'esta palavra de ordem: viver para os seus semelhantes.

[A Maçonaria Portugueza]

E, aqui, permitta-nos a assembleia que o Grão-Mestre da Maçonaria Portugueza preste uma homenagem calorosa, ardente e enternecida a quem tão alevantadamente a representou, a quem tão alevantadamente manteve o seu prestigio e o seu renome. E que ninguem se assuste! Muitas vezes vos terão dito, Senhoras, que a Maçonaria é uma sociedade de malfeitores.

Se ser malfeitor é amar a humanidade, ouvir a voz da natureza que nos brada: Todos os homens são irmãos, todos constituem uma unica familia; se ser malfeitor é fazer o bem pelo amor do proprio bem e escutar a voz da consciencia; se ser malfeitor é amar a verdade, praticar a justiça, e proceder com rectidão; se ser malfeitor é obedecer á razão, esclarecida pela sciencia; se ser malfeitor é amar os bons, fugir dos maus, mas não odiar ninguem; se ser malfeitor é ser progressivo; se ser malfeitor é ser tolerante, regosijarmo-nos com a justiça e insurgirmo-nos contra a violencia e a iniquidade; se ser malfeitor é accender essa immensa fogueira a que se chama a escola; se ser malfeitor é arrancar uma faisca de cada syllaba soletrada; se ser malfeitor é desenvolver o cerebro da creança pela instrucção; se ser malfeitor é formar o caracter pela educação; se ser malfeitor é combater o prejuizo, o preconceito, o fanatismo, a superstição, o erro e a mentira; se ser malfeitor é viver para os nossos semelhantes; se ser malfeitor é moralisar pelo exemplo; nós, os maçons, reivindicamos, com orgulho, esse titulo de honra.

José Estevão que, na Flecha dos mortos, como Baudin na barricada de Paris, affrontou as balas inimigas com bravura epica, José Estevão, soldado e tribuno, foi Grão-Mestre da Maçonaria portugueza, como o foi o general Gomes Freire de Andrade, enforcado na explanada da Torre de S. Julião da Barra, por ter commettido o enorme crime de ser portuguez n'um momento em que muitos eram inglezes. Umas modestas flores solitarias, cultivadas por mão amiga, á maneira das cruzes de madeira que o viandante encontra nas estradas desertas, attestam que n'aquelle logar se matou um homem. José Estevão foi Grão-Mestre, como o foi o duque de Loulé, como o foi José da Silva Mendes Leal, como o foram o conde de Paraty, o conde Valbom, o visconde de Ouguella, Bernardino Machado, o coronel Ferreira de Castro e o Conde das Antas; como o foi o illustre professor Antonio Augusto de Aguiar; como o foi o mallogrado chefe republicano José Elias Garcia, cujo enterro representou a apotheose de todos os que aspiram a uma patria livre; como foi Grão Mestre o rei Eduardo, de Inglaterra, e, como o é actualmente, o duque de Connaught, seu irmão; como foi Grão-Mestre o rei Oscar, da Suecia; como o foram José da Silva Carvalho e Passos Manuel; como o foram os imperadores Guilherme I e Frederico, da Allemanha, e, como o é ainda hoje, por intermedio do seu representante, o imperador Guilherme II; como foram maçons os patriotas de 1820.

Um professor da Universidade Livre de Bruxellas, n'um livro recente sobre Politica internacional, affirma que a grande revolução de 89 não teria tido logar se não fosse a Maçonaria. Mirabeau, S.t Just, Sieyès, Camillo Desmoulins, Lafayette, Danton, Boissy d'Anglas foram maçons. Diderot pertenceu á Loja dos Nove Irmãos, de onde sahiu a Declaração dos direitos do homem. Foi maçon o sabio Littré, que, sendo iniciado na loja da Clemente Amité, tomou como divisa: «O principal dever do homem para comsigo mesmo é instruir-se; o principal dever do homem para com os seus semelhantes é instruil-os.»

Por toda a parte se accentua uma tendencia para um fim determinado: a unidade espiritual da humanidade. Apparentemente separados, os espiritos criam e desenvolvem a consciencia da sua unidade. Apesar de não dependerem uns dos outros, encontram-se todavia, ligados por afinidades espirituaes, descendentes de uma mesma raça ou cidadãos de um mesmo Estado.

Para os que conhecem os signaes do tempo, não são os Estados nacionaes que representam as unidades economicas predominantes, nem são tambem os systemas religiosos que levam os homens a fraternisar uns com os outros: é a vida mundial á qual está cada vez mais subordinado o trabalho de cada individuo e de cada Estado; é a ideia de uma humanidade harmonica; é o internacionalismo que se revela como o culto do futuro. E a unica instituição que, através todas as perseguições e todas as vicissitudes, se tem mantido com caracter universal, é a Maçonaria.

A mensagem de José Estevão, dirigida em 1862 ao povo maçonico, é de uma actualidade palpitante e dir-se-hia escripta ha poucos dias e ha poucas horas—tal era a sua previsão!