«O que é a reacção que invadiu o nosso paiz senão um d'esses trabalhos insidiosos e solapados contra todos os grandes principios, porque a Maçonaria tem sempre combatido com tanta coragem e perseverança?
«Esta fórma de combater não é a que elles preferem. Adoptam-n'a por necessidade. Se lhe fôra possivel n'um momento derrubar a obra da razão e da philosophia, não demoravam esta almejada catastrophe. Mas transigem com as circumstancias e adoptam o arbitrio de temporisar.
«Os inimigos, porém, são os mesmos. Os gritos de peleja são os que eram bradados em tempo de mais poder. Agora segredam-nos, mas exprimem as mesmas paixões, os mesmos intuitos. Ao som d'elles, foram ganhas execraveis batalhas contra os fóros da humanidade. Agora, com as mesmas evocações, são praguejados os seus progressos e embaraçada a sua marcha no caminho da perfeição.
«A Maçonaria deve acordar do seu lethargo, levantar a sua bandeira, inspirar-se das suas recordações, tomar o seu posto tradicional. Se assim não fizermos, trahimos o juramento que prestámos, injuriamos a memoria dos irmãos, nossos passados, e usurpamos o titulo de maçons, porque o não é, porque não merece tal nome aquelle que é tardo em acudir pela defeza dos principios da sua ordem, aquelle que se cança na lucta e deixa as armas no campo.
«Cumpre á Maçonaria vigiar as praias da civilisação e ter bem policiados todos os signaes e precauções, para evitar aquelles enganos, desassustar a navegação, e tornar a viagem dos homens e das nações n'este mundo, mais certa, mais livre, mais virtuosa e mais honestamente aprazivel.»
Meus senhores: Escreveu Maximo Gorki que ha duas maneiras de viver: a putrefacção que é propria das almas egoistas e vis e a combustão que representa o calor, a vida e o movimento.
José Estevão viveu em plena combustão, e foi, em Portugal, não só o precursor do pacifismo, do socialismo, do movimento democratico, do anarchismo scientifico e philosophico, do anti-clericalismo, senão tambem a mais alta encarnação do genio latino, ao qual a humanidade deve o nascimento e o renascimento da civilisação; d'esse genio que irradia sobre o mundo e que todos os dias, no dizer de Anatole France, nos dá mais sciencia, mais liberdade, mais belleza, uma justiça mais justa e leis melhores; d'esse genio que não morreu ainda, nem morrerá nunca, como alguns erradamente suppõem, porque tem na America a sua continuação e a sua immortalidade pela sua raça, pela sua historia, pela sua tradicção, pela sua lingua, a verdadeira patria espiritual.
«Para o futuro—dizia—pertencerei decerto ao partido que começa a formar-se, que já está crescido, que vive entre nós sem termos dado por tal, que nos inspira sem nós o sentirmos e que mesmo do berço dirige as coisas publicas e domina até os homens de mais forte vontade... Se este partido fosse obra dos homens ou a sua creação pudesse ser contrariada por elles, talvez se não fizesse; mas esta ordem de coisas surge, rebenta da situação.»
Muitos lhe chamaram Demosthenes, outros Cicero, outros Mirabeau. Nada mais absurdo do que estas comparações que attestam uma mentalidade inferior. Cada orador obedece ao seu temperamento e é filho das circumstancias em que a sua palavra tem de actuar. José Estevão foi, principalmente, um grande tribuno, porque sentia estuar-lhe nas veias o sangue quente do revoltado, sem o que não ha sabios, nem philosophos, nem poetas, nem artistas. É com esta materia prima que se fabricam os heroes do nosso tempo. In hoc signo vinces...
Se os paizes se caracterisam, em geral, pelos nomes dos seus homens celebres, dos seus immortaes:—a França, por Racine, por Corneille, por Moliére, por Lamartine, por Gambetta; a Inglaterra, por Byron, Shakespeare e Gladstone; a Allemanha, por Schiller, Goethe, Mozart, Beethoven; a Italia, por Dante, Petrarcha, Mazzini, Garibaldi; a Grecia, por Homero e Demosthenes; Roma, por Virgilio e Cicero; a Hungria, por Kossuth; a Hespanha, por Velasquez, Cervantes e Castelar, nós, proclamando Portugal, como a patria de José Estevão, teremos prestado á sua memoria a maior das consagrações, tornando-o um symbolo—um symbolo da patria livre e redimida, da liberdade victoriosa e da emancipação da consciencia portugueza.