Não procuro inquirir das suas ideias politicas, nem isso importa, n'um momento em que todos os aveirenses, ousarei mesmo dizer, em que todos os portuguezes estão ligados, unidos, estreitados e vinculados pelo mesmo pensamento, pelo mesmo sentimento e pela mesma vontade. A hora é para a conciliação: não é para a repulsão. A hora é para o amor e para a concordia: não é para o odio e para a vindicta. É uma hora de jubileu nacional que não comporta nem sectarismos nem exclusivismos.
Um mixto de melancholia pungente e de alegria intensa me domina e avassala: de tristeza pelos que desappareceram, sombras queridas atraz das quaes corremos em vão, numa ancia febril, quasi infantil; de alegria, pelos que, escapados ao naufragio, eu vim hoje aqui celebrar, glorificar e acclamar, com o desvanecimento com que os antigos romanos exclamavam, orgulhosos: civis romanus sum, sou cidadão romano; com o orgulho com que Miguel Angelo bradava nos ultimos annos da sua vida: Anch'io sono pittore, ainda sou pintor. Com esse mesmo desvanecimento poderei exclamar: sou cidadão aveirense. Com esse mesmo orgulho, o orgulho de Pericles, depois da segunda derrota do Peleponeso, poderei bradar: eu de mim sou o que era e estou onde sempre estive!
Como poderia occultar, com effeito, o enternecimento que me enche o coração, n'uma onda de amor, n'uma emoção intraduzivel, ao encontrar-me de novo n'esta pittoresca cidade de Aveiro, onde, através um delicioso kaleidoscopio, entrevejo, em doce visão, o cysne do Vouga, na sua alvura immaculada, como o cysne do Lohengrin; em Aveiro, a minha patria adoptiva, terra mater, onde jazem os restos mortaes de uma mãe adorada; onde deixei o exemplo sugestivo de um pae honrado e forte; onde tenho um irmão, exemplar raro de elevação moral e intellectual; onde recebi, pela primeira vez, a palavra de ordem, para os rudes combates da existencia; onde, semelhantemente ao peregrino, ao romeiro que, depois de ter percorrido longinquas paragens, regressa ao lar, não para topar com a desillusão cruel, como o Frei Luiz de Sousa, mas como o Fausto da lenda, para reviver na sua Margarida fiel, isto é, no coração fiel—venho encontrar alguns d'aquelles que tanto amei, como eu, pendidos para o crepusculo. Como poderia occultar-vos o immenso jubilo de que estou possuido, ao vêr n'esta sala alguns dos legitimos representantes dos que, pela liberdade viveram e por ella soffreram e se sacrificaram, legando-nos o difficil mas grato encargo, não só de a conservar e de a defender, de a mantêr integra, como a bandeira de um regimento, senão tambem o de accrescentar novas victorias ás antigas victorias, aos antigos triumphos novos triumphos. N'esta religião, toda de piedade, de amor, de carinho, tenho educado o meu espirito e n'ella espero morrer.
A amizade é um beneficio dos deuses, diziam os gregos. Emilio Castelar, a quem eu devi uma das raras consagrações da minha vida, depois de umas ligeiras escaramuças que tivemos na imprensa hespanhola, e que arrefeceram um tanto as nossas relações pessoaes, aproveitando uma das visitas da princeza Ratazzi a Lisboa, escreveu-me uma longa carta, na qual, entre outras coisas, me dizia o seguinte: «As luctas da politica, meu querido amigo, por mais gloriosas e brilhantes, não valem uma boa affeição que inunda os nossos corações de uma luz radiosa, divina, a unica capaz de espancar as trevas da discordia.»
Quando se chega á minha edade—já Lamartine o constatava—vive-se muito de recordações. Recordar, n'este caso, é resuscitar; é evocar a ala dos namorados que nos tempos heroicos de mosqueteiro se batiam, quando não morriam, pela sua dama idolatrada. E a dama, para mim, foi sempre e é ainda a Ideia, a boa, a grande, a generosa Ideia; a origem de todos os commettimentos, de todas as audacias, de todos os heroismos; a Ideia, doce noiva espiritual, que não atraiçôa como os homens, que consola e faz viver; a Ideia, estrella, guia, pharol, que nos conduz á Terra da Promissão; a Ideia, mais poderosa do que os grandes potentados da terra, mais forte do que todos os exercitos do mundo, a Ideia em marcha não é outra coisa senão a propria humanidade descrevendo, através a historia e os seculos, a sua trajectoria luminosa, do mesmo modo que os astros nos espaços obedecem á lei da gravitação universal.
Athenas, com os seus monumentos—exclamava Castelar—Roma com as suas leis; Florença com as suas artes da Renascença; Veneza com a sua bussola; Pisa com a sua lei do pendulo; Strasburgo com a imprensa; o telephone,—acerescentarei—o telegrapho sem fios, o automobilismo, o balão dirigivel, o aeroplano—que representa tudo isso senão a Ideia illuminando o mundo, como a collossal estatua da Liberdade que se encontra á entrada do porto de Nova-York?
Nada mais consolador e fortificante do que recordar nomes queridos e saudosissimos e relembrar sitios, onde, na despreoccupação dos annos, na suavidade bucolica de Virgilio, vivi as minhas primeiras illusões, povoadas pelas abelhas do Himeto, como o philosopho que da sua torre de marfim vê o mundo côr de rosa, através uma atmosphera diaphana e transparente.
[A supremacia moral]
Felizes os que, longe do embate, do choque das paixões brutaes e grosseiras, das ambições illegitimas e inconfessaveis, dos odios implacaveis, podem manter uma juventude espiritual, a eterna juventude, divinizada por Petrarcha, amando a Vida e o Universo, na triplice manifestação de belleza, de verdade e de justiça.
É essa mocidade espiritual, ou, antes, essa força moral que caracterisa o sabio, o philosopho, o poeta, o artista, emfim todos os privilegiados do espirito e do coração.