E foi seguramente essa mocidade espiritual, essa grande e poderosa força moral que, mais do que nenhuma outra, caracterisou esse homem raro, unico, excepcional, que viemos hoje aqui celebrar n'um frémito unisono dos nossos corações, na suprema vibração das nossas almas; a palavra feita luz, o verbo feito marmore, mais poderoso do que os thronos dos Cesares, do que as tiáras dos pontifices—José Estevão Coelho de Magalhães—personalidade de granito; cidadão feito para a antiga Roma que não para o Baixo Imperio de uma sociedade corrupta; o ideal da liberdade, do amor, da justiça, da emancipação humana, na sua maior elevação moral e civica, o ideal da patria, d'esse patriotismo que teve o seu echo triumphal no hymno da Maria da Fonte, como os revolucionarios de 89 o tiveram na sua immortal Marselheza.

Superior á força das bayonetas dos Hapsburgos, na Austria, de Eduardo III, em Inglaterra, de Carlos V e Filippe II, em Hespanha, de Luiz XIV e Napoleão I, em França, não cessarei de o repetir—está a acção moral do individuo que foi, é e será sempre o segredo da civilisação. O homem não foi feito para um eterno martyrio e para repellir eternos attentados. Ha uma coisa superior a todas as luctas violentas: o dever reciproco. O methodo da civilisação não se conquista, porém, com a mesma facilidade com que se conquista uma praça forte.

As procellas, as trombas, os cyclones—dizia o inclito Ruy Barbosa, n'um dos seus discursos gravados em bronze—devastam mas não duram. O que não passa é o oceano de verdades eternas, indifferentes ao rugir das paixões contemporaneas, e por sobre elle a immensidade siderea das almas, que és tu, ó liberdade!

As demagogias são cataclysmos passageiros. Quasi todas as revoluções de vertigem popular naufragaram na dictadura. Só são definitivas as revoluções do direito e pelo direito: a que descaptivou a Hollanda, no seculo XVI; a que renovou a Inglaterra, no seculo XVII; a que organisou as colonias anglo-americanas, no seculo XVIII, e a que fizeram, no seculo XIX, a America latina, a Belgica, a Italia e a Grecia.

Ao contrario de Carlysle, que via na historia a obra pessoal e quasi exclusiva de alguns que elle denominou heroes ou grandes homens, Michelet, o seductor Michelet, via na historia a obra das multidões, a obra do povo, o protogonista de todas as revoluções.

Qual das duas theorias, qual dos dois criterios philosophicos será o verdadeiro?

Eu creio que ambos, porque, assim como a acção completa o pensamento, assim tambem a Revolução completa a evolução.

Foi certamente Camillo Desmoulins, quem, no Palais Royal, n'uma noite, ao mesmo tempo tragica e festiva, interpretando o sentimento francez, e, mais do que o sentimento francez, o sentimento humano, soltou o grito libertador—Á Bastilha! Mas foi a população do bairro de Santo Antonio, composta de esfarrapados, de famintos, de andrajosos, de sans culottes, da canalha, na linguagem da Ordem, quem a assaltou e a derrubou. Quero referir-me á Bastilha franceza, do seculo XVIII, porque, depois d'isso, quantas Bastilhas se ergueram e quantas estão ainda de pé, para vergonha da civilisação e da humanidade!

Foi, sem duvida, Emilio Zola quem, no processo Dreyfus, interpretando ainda o sentimento humano, soltou aquell'outro não menos formidavel brado: Accuso! Mas foi a opinião mundial, foi a consciencia collectiva, quem lhe deu a victoria, assim como foi a opinião mundial, a consciencia collectiva, quem denunciou o assassinio judiciario de Francisco Ferrer. Não foram os Pyrineus que separaram momentaneamente a Hespanha da Europa; não foi o Oceano que a separou da America: foi o carrasco, com as mãos retintas de sangue, quem a isolou do mundo civilisado.

Foi Leão Tolstoi quem proclamou a recusa ao serviço militar, como meio de acabar com as guerras que ensanguentam a humanidade. Mas foram as massas populares, foram os intellectuaes, que julgam sempre em ultima instancia, tribunal acima do qual não ha, não póde haver, outro tribunal, quem lhe assegurou o triumpho moral.