Como é sabido e como tantas vezes se tem dito, os planetas, girando á volta do sol e recebendo d'elle o calor e a luz, não teem todos os mesmos movimentos nem a mesma vida. Cada planeta é uma variedade na unidade do systema. Esta variedade na unidade, ou, o que vale o mesmo, esta unidade na variedade é geral na natureza. Todos os seres obedecem á lei da necessidade, excepto o espirito do homem.[8]

Em nosso juizo a idéa federalisia é a idéa republicana completada, alargada e aperfeiçoada. Somos federalistas, socialistas e livres pensadores, por isso mesmo que somos republicanos. A liberdade de consciencia é a base de todas as liberdades e a Republica consagra a liberdade. O socialismo é a expressão da egualdade e a Republica consagra a egualdade. Federalismo significa fraternidade e a Republica consagra a fraternidade humana. De extranhar é pois, que republicanos, como taes considerados, tenham ainda receio de se declararem federaiistas nos tempos que vão correndo, como se para uma propaganda honesta e séria, fôsse preciso deturpar e inverter principios!


II
A Europa e o federalismo

As nacionalidades, taes quaes existem hoje, escreve José Leroux, exclusivas e separadas umas das outras, como mundos áparte, são um mal—são a causa do mal e a causa da guerra. Uma modificação é pois necessaria a estes grupamentos humanos; é mister descentralisar as nações; estabelecer em cada provincia, em cada cidade um centro de actividade especial; é mister descentralisar e federar as nações entre si. Federação na nação e federação das nações; união federal e autonomia federal.

Para se ver quanto é justa a affirmativa do illustre descendente de Pierre Leroux, o creador da palavra socialismo, bastar-nos-ha relancear a vista pelo mappa da Europa.

Sob as differentes monarchias dominantes, a França esteve sempre dividida em reinos e condados diversos; sob o dominio dos Capetos chegou a contar sessenta e um Estados que não dependiam do monarcha senão nominalmente. Até o fim do seculo XVIII a corôa não conseguiu attrahir a si nenhum dos Estados independentes. O maior foi annexado pela conquista.

Durante a Edade-Média e os tres primeiros seculos do periodo contemporaneo, a França não formou uma só nacionalidade senão em dois periodos muito curtos: os quatro ultimos annos do reinado de Clovis e sob Carlos Magno, de 771 a 817.

Será a federação um anachronismo?—pergunta Pi y Margall, no seu precioso livro—Las Nacionalidades. Qual é hoje a nação mais unitaria? A França, não é verdade? Pois, apesar d'isso, um guerreiro habil, Napoleão I, comprehendendo a fôrça do federalismo, dissolve a confederação allemã, mas restabelece-a sob o titulo de Confederação do Rheno. Napoleão III, depois da batalha de Solferino, quiz confederar os povos de Italia.

Poderão objectar-nos que os dois referidos monarchas não queriam para o seu paiz o regimen federalista.

Convém, porém, dizer que, sem o querer ou sem o saber, a nação franceza estava impregnada da idéa federalista.