A Sombra, o Corpo doloroso, o Drama…

NOITES EM CLARO

Passas em claro as noites a chorar;
Dia a dia, teu rosto empalidece…
Faze tu, pobre Mãe, por serenar,
Santa Resignação sobre ela desce!

Rochedo que a penumbra desvanece,
Tu, por acaso, não lhe podes dar
Um pouco d'esse frio que entorpece
O coração e o deixa descançar?…

Jamais! Não ha remedio! Nem as horas
Que passam! Toda a fria noite choras;
Tua sombra, no chão, é mais escura.

Soffres! E sinto bem que a tua dôr,
Como se fôra um beijo, acêso amôr,
Vae-lhe aquecer, ao longe, a sepultura.

DUAS SOMBRAS

Pelas tardes divinas,
Quando a côr se dissolve em lagrimas doiradas,
Eu vejo duas Sombras pequeninas,
Andando de mãos dadas.
Como duas creanças que elas são,
Percorrem, a brincar,
Esta minha infinita solidão;
E extatico e suspenso, eu fico a olhar, a olhar…
Bate-me o coração; caminho… Na distancia,
Através do crepusculo divino,
Vejo a Sombra infantil da minha infancia
E a Sombra do Menino!
E d'elas me aproximo; e paro; tenho mêdo
De as vêr fugir, assim…
Seus Vultos de chimera e de segrêdo
Tremem deante de mim…
E como se parecem!
O mesmo adeus no olhar, o mesmo rôsto e altura…
E ao pé d'elas as cousas se enternecem,
E este meu coração aberto em sepultura.

Durante a tua vida, meu Amôr,
Quantas vezes, ao ver-te, imaginava
Olhar de perto, a minha infancia toda em flôr!
E ainda mais: pensava
Que eras a minha propria Infancia novamente,
Mesmo deante de mim, resuscitada
E brincando comigo alegremente,
N'esta velha Paisagem bem amada,
Terra da meia noite, alma do outomno…
N'esta casa velhinha, evocadora,
Tocada de luar, de sombra e de abandono,
Da alegria de outrora…
E por isso, no dia em que morreste,
Quando tudo era lagrima, a distancia,
Coração, duas cruzes padeceste;
Duas mortes soffreu a minha infancia.

LAGRIMA