E partirei talvez sem lhe deixar,
Na memoria, esse interno e fundo olhar,
A comovida imagem do meu sêr…
SÓSINHO
Tarde. Vagueio só por um outeiro.
Sua Imgem chimerica fluctua,
Deante de mim, no espaço: é nevoeiro
Vestindo de emoção a terra nua…
E como na minh'alma se insinua
Aquele etéreo Vulto… amôr primeiro!
Ouço-o falar, lá fóra, á luz da lua.
Vejo-o brincar na sombra do terreiro.
Apenas vêm meus olhos, n'este mundo,
O seu perfil angelico, o seu fundo,
Misterioso, verde negro olhar…
Vejo uma estrela? É ele. Vejo um lirio?
É ele. Tudo é ele. E o meu delirio
É ele: é o seu espírito a cantar!
DEPOIS DA VIDA
Quando meu coração parar desfeito
Em sombra, na profunda sepultura,
E o meu sêr, já phantastico e perfeito,
Vaguear entre o Infinito e a terra dura;
Quando eu sentir, emfim, todo o meu peito
A transformar-se em constelada Altura;
Eu, divino Phantasma, o claro Eleito,
O Enviado da Vida á Morte escura;
Quando eu fôr para mim minha esperança,
Meu proprio amôr jamais anoitecido,
E a minha sombra apenas fôr lembrança;