Os meus olhos abrigam como um templo,
Tua divina Imagem que os eleva
E os enche de purêsa e santidade;
São os meus olhos intimos, aqueles
Que entre as nuvens avistam, certas horas,
Azas de Anjos, relampagos de Deus,
E não meus pobres olhos materiaes
Na côr, nos formas vãs crucificados.
E tu vives e falas nesse mundo,
Ao pé do qual meu corpo de tragedia
É sua antiga e vaga Nebulosa…
E em meu nocturno espirito rebôa
Aquela tua voz amanhecente
Que espalhava alegrias pelo ar.
E a tua voz divina, por encanto,
Se espêlha em minhas lagrimas que ficam
Todas, por dentro, acêsas num sorriso.
A lagrima vê tudo: a propria voz,
Pousando á sua tôrva superficie,
Nela desenha, em ondas, o seu Vulto.
Meu doloroso sêr com tua Imagem
Eterna comunica. A minha vida
Na tua morte assim se continua…
Embora exista entre elas a distancia
De sombras lampejantes, que separa
Nosso corpo mortal do nosso espirito.
E eu canto, e me deslumbro em minha dôr!
De subito, anoiteço, e me disperso,
E vejo-me Phantasma… e, a sós, divago
Pelos caminhos lúgubres da Morte…
E chego á porta em flôr do teu sepulcro;
E uma alegria misteriosa vem
Doirar a sombra vã de que sou feito…
E esta alegria és tu… que me apareces!…
Minha segunda vida transcendente
Nasceu da tua Ausencia que lhe imprime
O drama eterno, a acção divina e triste.
Tua morte refez meu sêr: abriu-lhe
Novo sentido de alma; aquele olhar
Que no seio das lagrimas desperta,
E veste de infinito e de saudade
A tôsca rocha bruta que se torna
Espirito vivente no crepusculo:
Esphinge em cujos labios a tristêsa
Das cousas interroga a dôr humana.
E vós, ó brutas cousas reviveis
Perante o meu olhar que vos penetra
De seu liquido lume visionario.
Tornastes a viver. As vossas almas
Que a minha dôr primeira afugentou,
São presentes, de novo, em vosso corpo.
Ei-lo scismando, triste, á luz do luar,
Na projectada sombra que, a seus pés,
Desenha ignotas formas de silencio…
Ei-lo embebido em mistica ternura,
Tremulo de emoção, reverdecendo,
Esculpindo, no ar, melancolias…