E a tua Imagem paira sobre mim…
Todo eu palpito em ondas de anciedade!
Abysmo de emoção, em mim me perco!
E minh'alma exaltada e comovida,
D'este meu sêr trasborda e inunda tudo!
Arde no fogo virgem das estrelas,
Em cada humana lagrima scintila,
Chora nas nuvens, no êrmo vento geme!
E julgo haver, meu Deus, resuscitado
Da morte que soffri para nascer!
Sim: o meu berço é irmão do teu sepulcro;
Teu cadaver baixou áquele abysmo
Donde subi outrora á luz da morte…
E lá tu me encontraste ainda em vida,
Na Aurora que precede o nascimento,
E parece doirar a nossa Infancia…
Sinto que estou comtigo em outro mundo.
Lá vivemos os dois em companhia,
Muito embora eu arraste sobre a terra,
Que teu cadaver, tão mimoso! esconde,
Esta minha Presença de afflição!
E beijo a tua Imagem, de joelhos…
E, em meu silencio, reso… E a tua Imagem
Agora é grave, séria, quasi triste,
Porque se fez sagrada além da Morte.
A NOSSA DÔR
Emquanto chora a Mãe desventurada,
Sobre o seu coração, de noite e dia,
Eu canto a minha dôr; e a dôr cantada
Como que intimamente se alumia…
Se me levanto cêdo e a madrugada
Já vem doirando os longes de harmonia,
Sinto que estás ainda despertada
E eu ouço, em mim, cantar nova elegia.
Abre-te a dôr os olhos sem piedade,
Durante as longas noites de amargura…
Mas para mim a dôr é já saudade.
A dôr, em mim, é canto que murmura;
A dôr, em ti, é negra tempestade:
Sou a noitinha, e tu, a noite escura!