E ri na cara da Morte,
Ó vento norte,
O riso que ela me deu!
E de traz d'um rochedo,
Ergueu-se o vulto pálido do Mêdo…
Que frio gesto e lugubre estatura
Ébria de ceu,
Somnambula de Altura…

E vi o fundo ao Riso. A minha dôr
Tocou-lhe o fundo. E vi de perto, então,
A sombra inicial da Creação,
A luz final do Amor!

E eu ri na noite triste! E á luz da aurora,
O meu sorriso empalidece e treme,
E geme
E chora:
Assim uma candeia
Brilha na sombra, e, triste, bruxuleia
Á luz do sol tão forte,
Que ás outras pobres luzes traz a morte.

E o dia vem nascendo… Que tristêsa!
Manhã cinzenta e baça!
Como perde a paisagem a belêsa:
A penumbra que a veste, e é sonho e graça…

Adeus, ó Morte, ó velha irmã
Da sombra, do silencio e do luar…
Ó frio desencanto da manhã!
Já vejo naufragar,
Na voragem da aurora, o meu cantar!
Ó claridade!
Ó sol! Ó sol! Aparições do Ruido!
Movimento desmedido!
Poeira humana… Actividade!

Levou-me a luz do dia o que me trouxe
A noite, a solidão, a luz do luar…
E a Morte, que em meus braços foi Donzela
E corpo de beijar,
Pegou da fria Fouce
Saltou ligeira, rindo, á dura séla
E foi ceifar, ceifar!

E emquanto o Doido ao vento assim cantava,
Trotava a Morte ao longo do planalto,
Na meia luz, na meia realidade…
E a sombra da sua Fouce, em negra curva,
Ia da aurora ao poente; e a do seu corpo,
Parecia manchar toda a Paisagem.

Ficára a sós o Doido e a sua vida;
E tres noites cantou aquela estranha,
Milagrosa aventura que, depois,
O Imaginar do Povo consagrou
N'esta Lenda, em que a noite e a luz do sol,
A vida e a morte, as lagrimas e os beijos,
São como a propria Sombra da Saudade.

E ele viu, através do seu delirio,
Pela primeira vez, sua figura
Enigmatica, occulta, transcendente…
Viu que existia n'ele um outro sêr:
O que domina as trevas e possue
Sempiterna Presença Espiritual…
Parte da sua vida inominada
Que não é propriamente a sua vida,
E constitue as vagas e remotas
Fronteiras da sua alma que se perde,
Em humildade e amor, na luz de Deus.

Sim: foi a Morte, foi, que lhe mostrou
O que havia de belo e de perfeito
Na sua escura e misera existencia,
Com esse gesto descarnado e gélido
Que os sorrisos apaga e que amortece
Todas as vãs palavras e ironias,
Derramando nas Cousas esta sombra
Infinita e profunda que se chama
Seriedade, Religião, Misterio…