Dulcificavam-se, pois, para a convivencia dos seus achegados e amigos que a adoravam, aquella alma, o caracter, o temperamento. Lamentavel que taes olhos tivessem perdido o seu raro poder de fascinação; doloroso que a physionomia de Margarida, outr'ora tão harmonica das combinações que dão a formosura, se houvesse transformado em cicatriz... Existia, porém, pessoa que, por um lento labor, já conformada com o actual estado, a preferia como era e não a desejava como fôra. Quem? Antonia, a querida ama, para a qual esta fealdade era formosura, e que julgava a sua menina muito mais venturosa depois de feia. Coisa estranha e de maravilhar, que um rosto assim desfigurado, com manchas brancas n'um ponto, violaceas n'outro, liso e espelhento aqui, enrugado e baço acolá—um todo arrepanhado de linhas divergentes e crusadas—tivesse tamanha influencia e poderio sobre as almas; que esses olhos brancos, com um ponto cinzento, apenas, no sitio da pupilla, vissem coisas do ceu, que nenhuns outros olhos descobriam!... A sincera Antonia, que mais que ninguem permanecia junto de Margarida, soffrera mais que os outros do potencial ascendente. Ouvia-lhe as confidencias do pequenino coração, seguia com a mente todas as maravilhas que ella descrevia do interior da patria celestial, onde domina a magestade do Grande Deus, no meio do explendor e das harmonias dos anjos, archanjos e seraphins. Não podendo conter no rude peito a emmoção causada por tantas bellezas, dizia-as e commentava-as com pasmo deante de amigos e confidentes, exclamando com toda a sua alma nos labios: «Não vedes n'isto—ó gentes!—uma santa que ainda vos hade fazer milagres?»
Era realmente o que todos viam, com verdadeiro jubilo e devocção. Já na mente collectiva, o alto problema da santidade de Margarida se resolvia e fixava. Correu d'isso o clamor e a fama, com a velocidade dos ventos que varrem nuvens do céu e não tardou que se referissem resultados beneficos de supplicas que Antonia lhe levara. Ainda sua mãe procurava no valimento celestial de patronos afamados meio de lhe restituir a vista, e já Margarida era grande protectora de infortunios alheios, juncto do Altissimo. Antonia que appresentava em segredo os pedidos de suas comadres, recebia os agradecimentos e tambem se engrandecia aos olhos do povo, com o seu nome envolvido em assumptos de tanta maravilha. Não tardou que aos ouvidos de D. Claudina e de João da Costa chegassem os côros dos favorecidos, já com novos pedidos e rogos instantes. Não poderam obstar, tambem, a que pessoas gradas se viessem ajoelhar juncto do leito da creança, fazendo-se directamente ouvir nas suas queixas e tocando-a nos magros dedos com o melindre com que se devem tocar as coisas divinas. Esses que de novo chegavam, ao verem-lhe transtornada a formosura, não recebiam desagradavel impressão, não achavam aquillo hediondez, antes para elles se confirmava a opinião de que Deus escolhera Margarida, para entrar no seu côro celestial de Virgens, e que para a separar do mundo sensual e peccador, se servira d'um meio que para muitos pareceria infortunio, mas que fôra na realidade Grande Ventura. Assim se consolavam os corações dos amargurados paes, que n'estas palavras encontravam compensador lenitivo.
Haviam-se passado dois annos sobre o inolvidavel dia da catastrophe. A casa de João Costa estava sempre cercada de gente devota, que vinha abrigar-se sob a influencia benefica de sua filha; á capella concorriam offerendas que depositavam aos pés da padroeira, com a ceguinha irmanada no nome e no celestial prestigio. Até esta epocha raras pessoas haviam sido admittidas á presença da piedosa creança; porém augmentando os pedidos vehementes e não podendo ser contida a onda que se avolumava, necessario se tornou adoptar o expediente de Margarida assistir, domingos e dias santos, á missa da casa, onde os interessados podiam concorrer a contemplal-a e impetrar directamente o seu valioso auxilio, perante os altos julgamentos divinos. Para melhor ser vista collocaram a cadeira em que a assentavam juncto do altar, do lado do evangelho, voltada para o officiante.
Assim todas as pessoas, recolhidas na sua fé, lhe podiam dirigir silenciosas preces, levantal-as fervorosas durante o santo sacrificio. Para a não fatigarem, pois a sua fraquesa era ainda grande, só áquelles que para isso tinham poderosos motivos, se consentia que no final da missa lhe beijassem o longo rosario e as santas reliquias que trazia ao pescoço. A esses dizia ella palavras consoladoras de promessa; e maravilhava aquella memoria, que a cegueira tinha tornado mais firme e vidente, pois aos antigos conhecidos mencionava circumstancias da vida e os nomes dos filhos, especialisando cada coisa nas suas referencias. Aquella voz encantava, era carinhosa e suavissima como as dos coros sagrados, que se ouvem em sonhos. Melodia que vinha do alto, as palavras que proferia eram recolhidas com avidez, uncção e respeito. A todos promettia incluir nas suas orações ao Senhor, e com tal voto lhes lavava o coração dos sentimentos maus e peccaminosos, que por desventura n'elle tivessem medrado.
II
Os paes de Margarida já pareciam conformados e até orgulhosos de sua filha. Seguiam o movimento geral das opiniões, admittiam-lhe a santidade e o poder sobrenatural, que sobre ella tivesse vindo como emanação de Deus, n'esse dia para sempre memorado da catastrophe. A Providencia impõe os seus designios aos homens pelos modos mais contraditorios: com uma penna d'ave mata, com um raio póde ressuscitar. Havia conformidade na crença geral: a cegueira de Margarida era irremediavel por ser de origem e vontade divinas. O não terem sido escutadas as supplicas endereçadas por intermedio dos mais famosos santos conhecidos, era prova e signal de que deviam submetter-se ao querer do Altissimo. E por ultimo—opinavam os confessores—o dom de santidade em vida, não vale mais do que a maior realeza da terra, ou do que todas as realezas da terra junctas?
Concordavam e acreditavam-n'o os submissos paes, sentindo-se até enternecidos por haverem dado o ser a Margarida, ainda que se reconheciam differentes d'aquella carne, que depois que recebera o divino sopro, era de razão que tivesse mudado de natureza. Notavam tambem que Margarida vivia de cada vez mais encantada com os doirados quadros da sua imaginação, que lhe antecipavam a Bemaventurança, á morte. Tudo que dizia na sua voz dulcissima, encanto de todos os ouvidos, era risonho e alegre: via-se que d'uma grande desgraça, sahira a suprema ventura, a sublime pacificação da alma. Que encantadores esmeros de sentimento Margarida tinha para seus paes! E elles, os ditosos, escutavam-na, como se percebessem falas de anjos, ou sons de harpas divinas a desferirem hymnos no espaço! Tudo correu santamente em dois annos de vida gloriosa, que junctos aos dois primeiros de vida atormentada, formavam os quatro annos de reclusão, tanto de Margarida como de seus paes e de Antonia, que até os preceitos obrigatorios da religião satisfaziam na capella da casa. D'isto resultou que uma funda anemia, acompanhada de dôres craneanas e insomnias perturbadoras, se apoderou d'aquelle pobre e implume corpo. Os medicos impozeram então a necessidade de passeios ao ar livre, que a creança respirasse brisa balsamica de montanhas e pinheiraes. Era egualmente indispensavel a luz directa do sol para se não estiolar e morrer a mimosa e tenra planta. A ella mais do que a todos custou esta ordem dos medicos, pois todos e ella se tinham habituado a este existir sereno de vida santa, em convivencia de imaginação com o Ceu, de que Margarida dizia coisas de encantar. Antonia, tambem habituada á clausura da sua menina, vivendo sempre na contemplação do ente raro, que era o maior louvor do seu leite abençoado por Deus, arremetteu em palavras contra o mandado dos facultativos. Temia dissipar-lhe o encanto divino, entregando-a á convivencia de todos que lhe quizessem falar nos caminhos por onde passasse. Comprehendia que assim já não a podia conservar tão intima, nem tanto para si. Era o egoismo humano a rebentar no mimoso jardim de sentimentos tão elevados...—a rude Antonia apavorava-se com a idéa de que aquelle affecto, que ella creara com uma sugeição e uma dedicação de tantos annos, podesse diminuir. Mas tanto ella como D. Claudina e João da Costa, porque amavam incondicionalmente Margarida, era justo que se opposessem ao parecer dos medicos e assim consentissem que se esgotasse esse precioso e delgado fio de existencia, que em tamanho preço tinham? Não, até o proprio egoismo, coisa diversa aconselhava, pois a separação que a morte carnal viria definir, ser-lhes-hia milhões de vezes mais custosa do que o era a cegueira, quando a julgavam uma fatalidade. Acceitaram assim, o facto, tomando-o como todos os demais conselhos attinentes á existencia de Margarida, pois os julgavam de inspiração divina, por tenderem a não enfraquecer o tenue vigor d'aquelle fragil e delicado corpo.
Estava-se na primavera: nos valados rebentavam as flores, os gommos enfeitavam já as arvores despidas e tristes. Tempo alegre e soalheiro, atmosphera odorifera e excitante. Iam pelos caminhos pedregosos da aldeia, á procura de pontos altos, onde corresse viração. Margarida desaprendera de andar, trocava os pés como quando d'um anno principiara a correr na sala, queixava-se de que as pernas lhe não podessem com o corpo. O vestuario, apesar de reduzido ao minimo de agasalho, era-lhe d'um peso incomportavel. Fatigava-se e pedia frequentes repousos nas bordas da estrada, em muros baixos e sobre as pedras avulsas que encontrassem. Seus paes, ou Antonia, levavam-na pelo braço como uma convalescente, sentindo-lhe o contacto do corpo, leve como uma penna. E assim parecia pessoa vulgar que viesse trazer saudações á luz, amando-lhe o explendor; que viesse visitar a paisagem que tencionava gosar longamente. Cada dia seguiam destino differente; mas sempre para o alto d'onde se descobrisse o fertil e carinhoso valle. Após os primeiros passeios, sentindo-se mais vigorosa, pois tinha menos dôres e somnos mais tranquillos, Margarida, n'um resurgimento de memoria, é que mencionava os sitios que preferia visitar. Parecia este o caso trivial d'um ausente de muitos annos, que tornasse a viver nas paisagens queridas da infancia e procurasse confrontal-as com as sensações d'outr'ora... Passava-se n'aquelle cerebro um trabalho lento de rememoração, uma reviviscencia psychica. Nos pontos elevados, onde a respiração é mais livre, larga e substancial, todo o corpo se lhe aerificava, conhecia-se ligeira como qualquer ave voando. Amplificava-se-lhe o peito; excitada pela fragancia da brisa fresca e alpestre, vinham-lhe assomos de enthusiasmo, extasis de commoção perante o renascimento das plantas, a côr afagadora da verdura, que não podia apreciar com os olhos. «Como estão bonitos os campos!—exclamava. Para ali o Ramisco, para acolá a Cerdosa, em frente Refuinho! Como estão bellos estes campos já semeados, as arvores em flor, os bois a pastar nas hervas!»
Parecia que tinham vista aquellas pupillas opacas, mas illuminante, como dois brancos seixos no fundo de limpida corrente. Se ellas estavam sem movimento, presas ao sol, o rosto de Margarida adquiria a inspiração do dos santos nos extasis contemplativos da magestade divina. Esses globos de leite coalhado, no meio das serziduras das feridas, eram duas candidas cecens em terreno arenoso. O riso, meigo e attractivo, mais bello do que o das rosas ao abrirem, illuminava-lhe os sentimentos. As falas murmurantes, como agua correndo em regatos, passavam nos ouvidos e eram gorgeios de ave: «Oh! que bom cheiro o das serras e dos campos, como é suave o aroma das flores, minha mãe!» «Não sentes os passaros a cantarem nos arvoredos, querida Antonia?!» «Quando iremos nós ao Ramisco, meu pae?! Ainda voltará, o tio Frei Jeronymo, á sua casa de Preste?»[1]