Falando assim quedava-se silenciosa, rosto erguido ao ceu, a expressão vaga de cegueira suspensa sobre os campos da veiga, que se alastrava no sopé da montanha. Este goso espiritual que se adivinhava dentro d'ella ao contemplar o mundo material com a vista da memoria, enchia de prazer os carinhosos paes, que tinham n'esta filha um thesouro celestial, um tabernaculo de coisas puras e santas. Tão habituados já andavam a consideral-a um ser superior á misera contingencia humana, a ver-lhe na vida da alma uma vida transparente e etherea, que o doloroso acontecimento que a cegara, de desventura se havia transformado em obra de graça, pela santidade que lhe trouxera. Acreditavam piamente n'esse divino dom que sublimara aquelle corpo enfesadinho e anémico, que espiritualisara, com belleza nova, aquelle rosto transtornado pelas manchas de cicatriz, que dera áquelles olhos a visão de coisas sublimes. Enobrecia-os esta ligação carnal com quem já em vida pertencia ao Ceu. Por isso cercavam Margarida de esmeros e delicadesas devidas ás entidades superiores á rudesa commum; pois que essa parte material do ser que nutriam, tocavam e aconchegavam era apenas condicção transitoria de passagem no mundo d'uma alma immaterial, já moradora dos paramos sem fim, em convivencia de Bemaventurados. Aquellas imaginações recreavam-se em acompanhar Margarida a esses mundos d'Além, onde presumiam que ella ia nos periodos de somno. Se ao acordar pronunciava palavras vagas de sentido obscuro, n'isso encontravam o final das palestras que tivera com os anjos, seus irmãos. E como vereficassem que o seu falar era mais elevado e inaccessivel, quando rodeada de muitas e muitas flores, traziam-lhe diariamente molhos das mais raras embellesando-lhe assim o quarto, como se fôra uma egreja. Era apenas uma antecipação das homenagens que de futuro lhes seriam rendidas, pelos numerosos crentes que se acolheriam á sua protecção. Para todos era de saber conhecido, que os santos apreciam muito os subtis aromas das plantas, que são essencias evolando-se ao ceu e excitam a imaginação, para comprehender melhor o sublime e o celestial. E nem os conselhos dos medicos tinham auctoridade para impedir que Margarida vivesse constantemente respirando os delicados venenos, que lhe proporcionavam noites deliciosas de encanto em que a mente, ebria de goso, se lhe alargava em quadros deslumbrantes. Accentuavam-se-lhe, por isso, as turbulencias do coração e o depauperamento organico; porém o seu querer era terminante e exigente, para que a não separassem das suas queridas flores. Comprehendia bem que eram ellas que a ajudavam a levantar a alma em preces fervorosas, e que lhe incendiavam a mente em extasis divinos.
Áquelles olhos que não viam, patenteava-se a celestial morada n'uma luz luarenga sempre egual. Mais que isto, os seus ouvidos escutavam n'esses instantes singulares, córos angelicos, em que a toada longa e plangente era como um balsamo, em que a alegria tomava fórma serena e augusta. E todos comprehendiam este viver de alma superior, esta sublimação dos sentidos para definir coisas ethereas, a descoberta do mundo dos encantos feita por uma creança em quem laborava a vontade de Deus. Esse dom subtil para comprehender era decerto a parte mais bella de tão gloriosa cegueira e para lh'o conservarem havia sempre abundancia de flores em volta do pequeno leito de Margarida. De longe e de perto chegavam offerendas copiosas—collocavam-nas em vasos, como nos altares, em açafates como aos pés da Virgem, no oratorio, em cima da commoda e juncavam-lhe com flores a propria coberta, que se lhe ajustava ao corpo doentinho. Assim podia ella sentil-as, com os magros dedos apreciar a maciesa das petalas, aspirar-lhes com mais avidez os energicos perfumes. E que riso de expressão tão estranha, illuminava aquelle semblante disforme, quando com o seu fino tacto, Margarida adivinhava as flores que ali tinha e as combinava em ramos e capellas, que pessoas de olhos sãos não saberiam entrançar com semelhante engenho! Se punha na sua propria cabeça essas corôas que fazia, todos notavam, quanto se parecia com as santas adoradas nas egrejas! Se dizia palavras de sentido transcendente, todos julgavam escutar sons que sahiam de mysteriosas nuvens. E ainda que fossem coisas que não comprehendessem, tal era a suavidade encantadora d'aquella voz incomparavel, tal o encanto musical da sua pronuncia maviosa, que os ouvidos profanos se sentiam magnetisados e as imaginações dos que escutavam iam voando, voando sempre, seguindo-a entre estrellas, n'uma região infinita e doirada pela vista fulgurante dos seres perfeitos e bellos que a habitavam. Aqui era o paiz encantado da visão e do mysterio, n'elle habitam entes immaculados e perfeitos! Vivia-se d'este modo na habitação terrena, fluctuando nas azas da maravilha, creada hora a hora. Uma continua apotheose d'um sonho, que só a crença na vida eterna podia gerar!...
[1] Amores, amores...
III
Porém o estado melindroso da saude de Margarida aggravava-se de cada vez mais. Os facultativos que a vigiavam com a sua experiencia, assignalavam os progredimentos da molestia, cuja historia conheciam. Nunca funccionara bem aquelle pequenino coração: nos primeiros annos de vida fôra excitado pelos estovamentos dos brinquedos infantis e pela insaciabilidade da creança mimosa, que dava azas á imaginação inquieta; no terrivel dia da catastrophe quasi se quedara preste, talvez que no proposito de nunca mais funccionar, mas recomeçou o seu labor; no longo periodo de soffrimento, que se seguiu, teve alternativas de resignação e desesperos, desalentos e esperanças vivas!... Os carinhos maternos e a dedicação nunca desmentida de Antonia apasiguaram-no e fizeram abrir na mente de Margarida os alvores d'uma aurora. O tempo trouxe o desengano, a certeza e o habito da cegueira, e o pequenino coração adquiriu definitivamente conformidade para o infortunio, n'uma submissão aos ditames de Deus, propria dos eleitos tocados da divina graça. Abrira-se para elle uma existencia nova, adornada de bellezas e de encantos: eram explendores do ceu, não comparaveis aos terrenos, que são mesquinhos e transitorios. Tudo á mente vinha do coração, d'esse coração combalido, improprio para a vida commum, e no qual a morte se aninhara como em casa propria. Mas no rosto cicatricial em que os olhos baços se moviam como duas bolas de jaspe, despontava a luz que illuminaria a Margarida o caminho de Bemaventurança e ella desejava e não temia o final dos seus dias contingntes. No som da voz melodiosa, como será a dos anjos, e no sentido das palavras que pronunciava, já se reconhecia essa levantada aspiração, esse sentimento do divino, que linguas vulgares traduzem por santidade. Caminhava esta pobre existencia corporea abordoada a um coração doente e não podia prolongar muito a sua jornada. Margarida acamou de vez e no aconchego do quarto concentrou-se na paixão dominante das flores, d'esses aromas que lhe povoavam a mente de sublimes visões e lhe faziam antegostar o ceu. Despertara-se-lhe, primeiro, este amor, nos passeios aconselhados pelos medicos para se robustecer, agudara-se depois, na existencia da sua mente recolhida em convivio de anjos. As flores são bellas e assim como em vida lhe adornavam a paisagem da morte, depois lhe enfeitariam a sepultura. Morte e sepultura, idéas risonhas, que assignalariam o seu voar definitivo á patria celestial. Não as chamava, estas escuras imagens, para não ulcerar os corações de seus paes e de Antonia, a quem o momento da separação custaria, ainda que a vissem erguer-se sobre nuvens á gloria de Deus. Porém os seus ouvidos apurados já sentiam os passos magestosos da Morte, que vinha n'uma comprida estrada enfeitada de todas as galas, juncada de palmas victoriosas, acompanhada de musicas alegres. Festa superior á da entrada da primavera, nos campos e nos montes cobertos de boninas, com o ar empregnado de balsamos humados da terra, a omnipotencia da luz descendo do sol para tudo engrandecer! O coração doente consolava-se com os aspectos d'esta vida sonhada, alagava-se n'uma paz doce, larga e consoladora, que era um vislumbre da que se gosaria na presença de Deus!...
Por isso ao presumir proximo o seu ultimo dia, sentindo por adivinhação que a alma se ia desprender do corpo em que reinara, que a materia resignava a força que a enobrecera, é que pedia mais flores, muitas flôres para embebedar com aromas a imaginação. Tinha a cama de virgem sempre coberta de rosas, de açucenas e de todas as flores campestres de belleza tão captiva e simples, de perfume tão casto e enebriante. Quando adormecesse no ultimo somno terreno, queria que fosse entre fragancias e côres, para nas azas d'essas coisas intangiveis subir ás alturas, onde habitam os anjos. Foi assim que veio para Margarida a feia morte, risonha amiga, como um carinhoso dom. N'esse dia assignalado cercavam-lhe o leito todos os queridos affectos que no mundo tivera. O bom cura Carvalhosa, de estola branca e oiro sobre a alva sobrepelliz, dizia-lhe em voz de uncção, palavras solemnes de esperança e ventura. O rosto sereno e quasi risonho do sacerdote espalhava no quarto, que era um sanctuario, coragem e tranquillidade, em todos os espiritos. Os paes de Margarida e Antonia ajoelhados aos pés da cama, voltados para a Virgem glorificada entre flores e luzes, no oratorio, tinham as faces innundadas de lagrimas silenciosas e votivas. Outras pessoas intimas, amigos e parentes, seguiam este ditoso despedir d'alma ao despegar-se do mundo. A illuminação astral do rosto da moribunda, com os olhos gelados a procurarem claridade n'uma risonha ancia de sublime, a todos animava. Parecia-lhes este morrer, antes uma transfiguração da vida: não era o afastamento para sempre, pois acreditavam que esse espirito, que de muito pertencia ao ceu, continuaria a velar pelos que muito amara, para os proteger contra as miserias terrenas. Margarida entre elles, escutaria as suas supplicas, fortalecel-os-hia nos desalentos e como branca pomba espiritual, havia de pairar sobre o tecto que lhe abrigara o nascimento e a morte. Aqui se lhe dispertara a alma para as coisas sublimes, para as visões eternas; ao cahir gradual do corpo todos lhe viram corresponder uma crescente sublimação do espirito; as suas palavras que se adelgaçavam na fortaleza, eram de cada vez mais cristalinas no som e tinham de cada vez maior sublimidade no sentido. É que já as pronunciava do limiar da Bemaventurança, cujas portas se lhe abriam de par em par. Tudo concorrera de longe, para que as lagrimas choradas em volta d'este pequenino leito de moribunda, coberto de flores rescendentes, fossem lagrimas mais de goso, do que de amargura, de conformidade e não de desespero.
Rompia a tranquilla luz da alvorada d'um dia d'Abril, que promettia ser alegre e soalheiro. Estava-se na mesma semana de Paschoela na qual, annos antes, começara o glorioso martyrio de Margarida. Havia cá fóra as pompas da natureza, a reviviscencia da terra subia ao azul em hymnos de aromas e cores. A doentinha chamara para juncto de si seus paes, Antonia, e os parentes mais chegados, as de Refuinho e as do Ramisco. Com uma voz que era um cicio de resa, de todos se despediu com palavras confortativas, de tanta elevação e carinho e santidade, que bem se comprehendia que não fosse um espirito da Terra, que n'ella vivesse. Com os dedos magros de santa deixava a cada um a lembrança d'uma flor, beijava, amorosa e humilde, as mãos de seus paes e do cura, sorrindo-lhes com os olhos cegos.—E rematando a vida disse:
—Pedirei ao Senhor, por todos. Perdoem a quem os fez soffrer!...
Rebentaram torrentes de lagrimas e córos de soluços, quando viram que não mais pudera falar, e que reclinara de vez a resignada cabeça no largo travesseiro... Começara um longo e infinito somno: o rosto d'uma serenidade angelica parecia formoso e expressivo como nunca fôra! Ainda respirava o balsamo das plantas odoriferas, os brancos dedos ainda procuravam o setim das petalas de rosas e cecens; mas aquella imaginação, aquella alma diluia-se na amplidão infinita, subindo ao espaço como um subtil perfume. Margarida repousava na paz eterna do seu Deus! Terminara o ultimo anhelo do coração.