Quão differente o seu namorado, rapaz franzino, d'aspecto juvenil, rosto comprido á Nazareno, cabellos negros e mal cuidados, formando sobre a fronte um tufo revolto d'anneis. D'aquelle todo sahia a expressão que a enlevava; da expressão desdenhosa ou indifferente a superioridade com que a submettera; das palavras simples, a musica dos seus ouvidos e da sua alma inteira. Como era bello e encantador de costas sobre os penedos, a contemplar o céo n'um sonho de poeta! Como era amoroso e vago, quando tocava na flauta, coisas que não aprendera com viv'alma!
O Russo decerto lhe queria com mais gana, com mais aquella, bem lá do fundo. Ao enxergal-a, desabrochando com a aurora no alto do monte, como subita e incomparavel flôr, todo se alvoroçou. Nos olhos e em todo o rosto mostrou um pasmo tonto, um riso sem valor, como aconteceria ao cego, cuja retina morta sentisse inesperadamente a gloriosa illuminação do sol. Correu para a abraçar no primeiro impulso; mas logo estacou contemplou-a a distancia. Ella, no alto onde se quedara, de roca á cinta, o lenço claro apanhando-lhe os cabellos, o recorte da sua figura desenhando-se no ar, era a pastora das lendas, calma e prophetica. O Russo percebendo o animo hostil com que a Tonia o recebia, accendeu-se-lhe n'alma a raiva e o ciume:
—Querias ir só com o outro? Não, que não!...
—Bem se me dá...—retorquiu desdenhosa. Tempo perdido, meu rico!
—Que lh'achas tu? Um lesma, um gomitado. Cá, sou um home. Elle...
A Tonia espertou-se:
—Mal comparado! Tu és um diabo, um porco bravo. Estafermo! Elle é lindo como um anjo do céo!
A furia do Russo cresceu:
—Sou capaz de o esborrachar na unha, como um piolho, demonios me nunca levem!
Tinha lagrimas de raiva, ao pronunciar a jura. Era paixão antiga e abrazadora. Desde os quinze annos, ainda aquelle corpo de rapariga era como um castanheiro novo, já elle a via constantemente na transparencia dos luares outonaes. As moles graniticas, penduradas eternamente dos pincaros, e resequidas pelo sol d'um infindavel agosto, não teriam mais firmeza, nem mais calor do que elle. O ciume era no seu corpo um moer lento e occulto, tal o fogo que mina a urze escondida na terra para a transformar em carvão. Condemnado por aquella repulsa constante, sentia-se desprezivel e desejava morte, em que soffresse muito. Comtudo não podia despegar a propria vida d'aquelle sonho malaventurado. Em presença da Tonia, a natureza ruiva e colerica aloirava-se-lhe n'uns cambiantes meigos e suaves. O mais tenro anho das suas ovelhas, não tinha para quem o aleitava tanto carinho e agradecimento, como elle mostrava áquella rapariga, n'uma submissão de coisa bruta. Comtanto que o amasse, se a sua vontade d'ella fôra vêl-o apodrecer no fundo d'uma córga, para ser alimento das aguias e corvos, ir-se-hia lá deitar voluntariamente e nunca mais comeria! A preferencia pelo outro é que o humilhava na sua consciencia de homem forte e magnifico. Quedava-se a scismar de noite no que teria de superior, esse engelhado, tão magro e pequeno como uma lavandisca. O corpo não, que o seu era grande como uma torre e devia inspirar sentimento de força. A paixão que lhe refervia lá dentro, longe de ser mollanqueirona, mostrava-se vehemente e feroz, tal a das lobas a defenderem os filhos. Aquella rapariga airosa, divina imagem de qualquer santa, voz musical como a dos passaros, tranquillo olhar como o da lua, aniquilava-o com a sua nervosa malquerença. Até ahi, nada a pudera abrandar: nem lagrimas soluçadas de bruços sobre os penedos; nem supplicas mais ferventes do que orações; nem juras e promessas inabalaveis como o céo. Diante das vontades e caprichos da pastora, era humilde e cego. Quantas vezes lhe ficára com a rez, para a deixar correr monte, talvez á procura do outro?! Quantas vezes lh'a fôra buscar ao curral e lh'a apascentara durante dias, para que ella fosse ás romarias, com os ranchos que passavam?! Até sacrificava o seu rebanho, pois dirigia o da Tonia para as melhores pastagens. Se tinha leite novo, logo lh'o offerecia como um presente; se encontrava tortulhos assava-lh'os e ella comia-os: para que não bebesse agua dos ribeiros, onde ha porcarias e animaes mortos, ia-lh'a buscar longe, trazendo-a na sua tigela, escrupulosamente lavada, como para uma rainha. Quando a Tonia acceitava de boa cara estes serviços, já o Russo se entendia muito bem pago. As recusas ou o mau modo, é que eram fundos golpes no seu torvo coração.