Vivia uma vida negra e de sobresaltos continuos. Passavam-lhe incendios diante dos olhos e a sua imaginação ficava a trabalhar em desassocego. A fatidica Pedra-suspensa (essa antiga ameaça!) parecia-lhe, ás vezes, que se ia desprender lá do alto, rolar pelos montes e destruir o mundo inteiro! Oh! visão amedrontadora de todas as existencias!... Só para a afastar, quantas vezes elle consentira o Chico deitado ao lado da Tonia! A moça fiava a lã da tarefa, cantava ou escutava-o enlevada. O magricellas, o ninguem, de papo para o ar, não tratava da rez. E o desprezado é que fazia o serviço de todos, guiando caridosamente as cabras e as ovelhas para a sombra das ramadas nos grandes calores, e á bebida antes de as recolher. Viviam assim pelos montes, perdidos entre tojaes e piornos, dormindo no verão debaixo das lapas e dos azevinhos. Havendo satisfação reciproca, tambem gostava de ouvir o tocador de flauta, que sabia muitas modas tiradas da sua cabeça. Era feliz nos momentos em que morava longe o ciume, isso a que não sabendo dar o nome, lhe queimava o peito, como tição ardente. Esquecia o desamor da Tonia n'essas horas gastas em somno tranquillo. A vida era visão suspensa dos ramos dos carvalhos, ou fluctuava brandamente como as folhas outonaes ao sabor d'um murmuro vento. Não havia quisilias, só desejo de felicidade, socego e gozo, em ventura calypsiaca. Raramente, porém, se passavam dias assim completos de ventura!...

II

Já tinham caminhado meia hora, n'um silencio inconvivente, quando chegaram ao ponto d'onde se descobria a Pedra-suspensa. Era o objecto da lenda mais famosa e conhecida nas povoações em redor. Visto de certo lado, aquelle granito, não se lhe encontrava o ponto de repouso, na lage subjacente; parecia um destaque de nuvem, no céo azul. Contavam, sempre em voz de medo, que logo no principio dos seculos, um mau genio e feio gigante, ali a depositara, como eterna ameaça a peccadores; porque a sua queda assignalaria o começo do fim do mundo. A instabilidade da Pedra-suspensa, tão reconhecida era, que ninguem duvidava de que uma creança de cinco annos a pudesse derrubar. Grande milagre, não a terem o vento e os trovões arremessado pelos espaços fóra!... O respeito que esse granito infundia, era o de um idolo vingador, ameaçando, dia e noite, as aldeias e o mundo!... Todos os dez annos se formava grande procissão de penitencia, com gente que partia de sitios mui distantes e ali se reunia afim de implorar misericordia. Recebida da tradição essa pratica, executavam-n'a com fervor d'alma religiosa e temente. Os homens ciliciavam as carnes, as mulheres erguiam clamores, as creanças berravam de amedrontadas, os bacamartes de bocca de sino troavam pelos caminhos e por entre os penedos... tudo para distanciar o pavoroso castigo!...

Depois das preces, ficariam acalmadas as justas cóleras divinas? Ninguem o assegurava. A intangivel crença em que a famosa pedra cahiria, para assignalar enormes desgraças, conservava-se viva e forte. Poucos tinham animo para a encarar tranquillos e serenos. Ninguem ousava approximar-se-lhe, muito menos tocar-lhe, com medo da responsabilidade n'um cataclysmo. Seria provocar inconsideradamente as cóleras do céo. Uma penha que bastaria o roçar d'uma corça para a fazer cahir! Pairava assim no ar, suspensa como uma aguia, por determinação da vontade divina. A não ser isto já as bategas da chuva, o impulso dos vendavaes, o degelo das neves a teriam arrastado. Pois não era um verdadeiro milagre a sua estabilidade?!...

A idéa de a escorar, diminuindo-se as probabilidades da catastrophe, fôra sempre repellida. Significaria desconfiança no alto poder que ali a conservava. Melhor é deixar o destino trabalhar por si. Está lá em cima quem tudo regula. O que tem de ser faz muita força... Pensavam d'este modo em palavras; mas no fundo, n'esse intimo sentir que até parece esconder-se á Providencia, se elles pudessem calçar a pedra para não cahir!... Contra as imprudencias brutas dos gados já se tinham prevenido, as gentes supersticiosas, sebando-a em volta com ramos e tojos. Porém as aguias, que vinham de longe, no seu vôo arqueado e solemne ali poisar? E os lobos famintos, que preferiam aquelle sitio para comer as suas prêsas? Só milagre e grande milagre é que a sustinha n'aquella direitura. Acreditavam-n'o camponezes e serranos, todos os que se desbarretavam e persignavam murmurando qualquer reza, mal a viam. Foi assim que procederam a Tonia e o Russo. Ambos quedos, ella com o fuso parado, elle com o barrete na mão, ciciaram orações. Mas o pastor, logo depois ameaçou a rapariga apontando:

—Vêl-a? Ha de cahir. O mundo acaba-se e tu não serás p'ra mim, nem p'r'ó outro.

—A Senhora da Peneda não ha de deixar—disse confiada.

—Sou eu que a empurro. Verás.

—Cala-te, hereje, que t'abro a cabeça.

Irada, com os olhos em chamma, arremetteu-lhe com um pedregulho. Havia ancia de raiva dentro do seu peito soberbo. O Russo não lhe pôde supportar a vista de cólera e desprezo; curvou a fronte, os olhos marejaram-se-lhe. O seu destino era peor que o dos condemnados do Inferno.