—Perdôa, não olhes assim! Tu é que me fazes dizer todos estes peccados.

—Tenho culpa de não teres temor de Deus? Estás na caldeira de Pedro-Botelho, vestido e calçado! E é bem feito!—accrescentou vingativa.

O cabreiro queria humildar-se até ao rasteiro das cobras e lagartos, só para lhe merecer uma sombra de perdão. Affligia-o mortalmente a idéa de que mais uma vez desagradara á Tonia. Como, logo adiante a rapariga vendo umas cabras se principiou a affirmar, para descobrir o Chico, foi elle que, no intento de se reconciliar com a pastora apontou:

—Está acolá, em cima do penedo...

—Assobia-lhe para vir p'r'áqui.

—Bem nos vê, se quizer...

Mas obedeceu, assobiou com os dedos na bocca. O outro não se importava, apenas mexeu a cabeça conservando-se na mesma posição.

—Vae lá, que vamos p'r'ó Guidon,—disse-lhe a moça.

Foi, humildemente, como um perdigueiro. Sentiu gozo em ser mandado; mas de raiva torcia nas mãos a grossa carapuça. Distante, a occultas para esconder a sua fraqueza, limpou duas lagrimas ao canhão da vestia. O outro não queria ir para o Guidon, estava ali muito bem. O Russo pediu-lhe que obedecesse, para a Tonia se não zangar mais.

—Ora... se 'stou regalado!—respondeu o pastor. Vai tu mais ella.