Por isso ia elle empurrar a Pedra-suspensa!

Doido, perdido, correu como um cabrão, de penedo em penedo. N'aquelle peito arquejante escondiam-se sentimentos de tigre. Era um demonio bruto; porém o instincto e o desespero tornaram-n'o sagaz. Para ser mais ligeiro e imperceptivel, abandonou os tamancos no caminho. Uma força de vendaval levava-o pelo ar. Podiam merecer-lhe piedade a desgraça do mundo e a eterna condemnação de todos os homens?! Algum vivente lhe mostrara sympathia, ou pensara em lhe prodigalisar carinhos?! O seu odio absoluto não distinguia a justiça da perversidade.

Já em cima dos penhascos, ao lado do rude instrumento de vingança, olhou em volta. Um leve impulso de sua vontade bastaria para se produzir o formidavel castigo. Conheceu a verdade da lenda:—simples sopro de gente moveria aquelle penedo tamanho como elle! Um resto d'esperança, porém, obrigou-o a reflectir. Deitou-se de bruços, arrastou-se para diante... A cabelleira fulva e farta como uma juba, excedendo o rebordo da lage, appareceu no espaço. Desvairaram-se-lhe subitamente os olhos:—viu com todas as minudencias irrefutaveis, aquelle terno idyllio, que resumia toda a sua desventura. O Chico tinha a cabeça no regaço da pastora. Ella dava-lhe de beber agua fresca pela sua tigela de barro vermelho. Era o quadro da Samaritana, dessedentando o tranquillo Nazareno, junto do poço biblico, na velha Palestina. O rosto pallido do rapaz, emmoldurado em cabellos pretos, tinha a sonhadora expressão de Jesus. Embebidos um no outro, prolongavam a existencia, na intensidade do sentir!...

Porém elle tambem era homem, tinha direito á felicidade como todo o sêr vivente. Se a Tonia lhe não havia de pertencer, melhor era acabar com a propria vida, que lhe não prestava! Havia de elle aniquillar-se, e os outros haviam de ficar n'aquellas serras queridas? Não lh'o acceitava a mente perturbada!


Os miseros estavam mesmo por baixo da Pedra-suspensa! A vingança n'aquelle cerebro, tomou fórma exacta o real, sem poeira de lendas. Podia esmagal-os, como dois sapos nojentos!... D'esta maneira, acabariam n'um instante duas vidas incompativeis com a sua felicidade. A morte para todos tres era uma solução de suprema justiça. A fé supersticiosa das montanhas tinha-o abandonado; o pobre ficara só, recolhido na sua dôr infinita!

Mesmo de bruços, principiou a recuar. O seu olho calculador e vingativo vira, que impellido o penedo, os dois morreriam, estreitamente unidos, sem tempo para um ai! Havia de ser fulminante esse acabamento como o causado por um raio de cólera divina! Poz-se em pé, sobre a lapa, a parallelo do instrumento fatidico. Veiu de novo a visão sanguinea! O panorama em frente appareceu-lhe envolvido em linguas de chammas! Era o primeiro signal do tremendo castigo, ha seculos esperado! Um impulso de cyclone dominava-lhe a vontade. Decerto era Deus que assim o mandava castigar dois peccadores.

Com a força nervosa e a serenidade d'um illuminado, applicou ao granito o largo e potente dorso. Demorou-se ainda alguns instantes!... Seria indecisão?... Era o gozo de ouvir estranhas vozes de coragem e applauso, bramindo-lhe dentro do craneo! Em volta, já começava claramente o desmoronamento do universo! E o impavido cabreiro, soltando um ronco selvagem—medonho grito de féra!—tombou a Pedra-maldita!

V

Não se descollaram do ultimo beijo os dois ternos amantes. A altura era enorme. No espaço produziu-se um som abafado e largo, que foi de quebrada em quebrada, pulsando até ao coração da Terra! O Russo conservou-se em cima da lage, firme, contemplativo, como o Stylita. Parecia tomado d'assombro! Os seus olhos de louco, viram pedaços de carne e o sangue atirados para o céo! Aquillo teria sido malvadez?!... Arrependeu-se de subito, ou quiz envolver-se no aniquilamento geral?!... Não poderia sobreviver a tamanho crime, ou eram os demonios que o reclamavam, como sua prêsa?!...