Approximou-se resoluto da borda da fraga! Em baixo o mundo cambaleante e confuso, era um grande incendio, surgindo de trevas absolutas. Diabolicas figuras cruzavam os abysmos, á procura de victimas e sinistros. Gritos infernaes sahiam das boccas escancaradas dos pincaros, como jactos de lava! Olhos vermelhos de demonios fixavam-no ironicos e cubiçosos! Abriu os braços n'um gesto de supplica e perdão, atirou-se ao espaço como um abutre de amplas azas e o seu grande vulto, rolando pelo ar, parecia vir da eternidade, na primitiva condemnação! Sobre a mole granitica impellida pelo seu desespero, esmagaram-se-lhe as carnes e os ossos! O sangue espirrou, tingindo de vermelho a relva circumdante. Era tudo quanto restava, d'uma paixão desesperada e selvagem!...


A manhã de primavera, tranquilla e sumptuosa de luz, alegrava montes e campinas. Enfeitavam as encostas, o codeço e o tojo, rebentados d'entre as penhas, cuja negrura avivavam d'amarello. As myriades de flôres dos urzaes, formavam tufos d'aljofares e d'amethystas nas aridas córgas. O feto novo era como uma extensão de relva, pelo verde claro. O modesto trevo e o alegre malmequer, salpicavam a terra. Gottas d'orvalho como lagrimas, rebrilhavam penduradas das flôres da giesta. As mattas silenciosas iam acordando com o gorgeio dos passaros. Nos fundos abysmos das montanhas, formavam lagos os pardacentos nevoeiros. Passado o primeiro momento de susto, os rebanhos continuaram a retouçar nas hervas, diante da gloria do sol deslumbrante. As aguias pairavam magestosas, ao longe, sobre os mais altos cumes. Toda a natureza palpitava e se engrandecia, sob a acção impulsiva do calor. Nas serras, nas brandas, nos ribeiros, nos cabeços, nos valles... uma tranquillidade pathetica de vida natural. Sobre os telhados das aldeias levantavam-se os fumos domesticos, brandamente, como fumos de incenso sobre os altares. Em volta a muda altivez da soberba e impassivel montanha!...

Só uma voz lamentosa se ouvia na socegada amplidão: era a do rafeiro, o amoravel Rabicho, que em redor da Pedra, chorava a pobre Tonia.

E chorava a cortar a alma, como se fôra um christão, ganindo, uivando, aos saltos em volta dos cadaveres!... Amoravel rafeiro, pobre Tonia, desgraçados amantes!... Ah!...

Lisboa—Novembro de 1888.

FOGO DO CÉU

(a Sousa Martins.)

I

A meia encosta da montanha subia a estrada de macadam, qual longa facha branca collada em fundo escuro. Tarde nevoenta, atmosphera pesada e electrica! As pessoas nervosas sentiam-se impacientes, com desejos fulgurantes e insaciaveis de imaginações inquietas. A necessidade de movimento, a agitação do corpo tornava-se imperiosa. Cada um procurava o esgoto rapido da sensibilidade que o affligia, o aniquilamento do proprio ser, com o fim de se encontrar no remanso bonançoso de uma vida serena e repousada, como as aguas de uma lagoa. Mary logo de manhã se levantara mal disposta, a carne em sobresaltos, uma intensa vontade de chorar. Pediu de tarde a seu pae que a acompanhasse n'um largo passeio a cavallo, galopando para longe, á descoberta de novas sensações, em horisontes infinitos, onde a vista se perdesse.