Para onde iriam essas nuvens de tempestade? Onde pararia Mary, loira, o rosto animado, impetuosa, franzina, a imaginação ardente a pedir largas paisagens, o coração oppresso a desejar atmosphera mais leve, que os pulmões respirassem desafogadamente?!...

Chegaram ao vertice da estrada. Para a esquerda havia montanhas sombrias e estereis; porém era completa a solidão e o desamparo!

Descobriam aldeias e casas, a muita distancia, n'um ajuntamento de defeza contra os perigos dos ermos. Haviam caminhado em largo galope além de uma hora, distanciando-se sempre do povoado. A antiga morada d'onde tinham partido, só pelo tino acertariam onde ficava! Mary quedára-se a olhar com ousadia, para o céu e para a terra, o corpo mais livre, o querer amplo, a imaginação em maior tranquilidade. Esta uniforme paisagem de serranias que se pegavam umas nas outras, com um tom azulado e vesperal era de immensa pacificação. Porém as nuvens caliginosas condensavam-se já perto, o regougar do trovão aproximava-se a olhos vistos, a propria natureza parecia preoccupada, emquanto Mary sorria deliciosamente ao céu plumbeo, ás montanhas ondeantes, ao valle cheio de arvores amarellentas, que levantavam para o ar braços em supplica.

Dous pequenos pastores, de certo irmãos, desciam apressados dos pincaros, trazendo o seu rebanho. Receiavam chuva grossa e trovoada, eram muito pequenos e supersticiosos, vinham com ancia de se recolherem á protecção de Santa Barbara bemdita, e de lhe resarem junto da lareira, onde arderia o canhoto do natal, amuleto contra as iras do céu. Irmão e irmã, teriam dez a doze annos, rotos e pobrissimos, aspecto triste e desconfiado. Os cabellos em desalinho, descalços, as pernas arroixadas do vento cortante dos montes! Desciam espavoridos, correndo pela encosta abaixo, acompanhados do cão e do rebanho, tudo juncto em grande confusão. A sua pobre choupana coberta de colmo estava no sopé da montanha. Conheciam o tempo, não havia que esperar, a trovoada aproximava-se, não tinham valor para a aguentar sósinhos lá em cima. Mary, com os olhos pregados n'elles, vendo-os a rebolar aos saltos pelo monte, encarecia, na sua boa alma, a conformidade, que adivinhava n'aquella vida humilde:

—Meu pae, aquelles pastores, aqui sósinhos!...

Já saltara do cavallo, esperava-os para lhes fallar, interrogal-os ácerca da sua pobreza que devia ser incommensuravel, dar-lhes alguma cousa para o agasalho do corpo.

Cahiam ruidosamente as primeiras gottas de chuva. Grossas como landes varejadas de carvalheiras por ventania aspera, espapavam-se no pó da estrada. Havia forte ruido no ar; ao parecer, mão herculea impellia de grande distancia punhados de areia: era o bater secco do granizo sobre os terrenos, sobre as penedias e nas folhas amarellentas dos raros carvalhos. A turbação atmospherica augmentara subitamente, escurecera tudo em redor. Os trovões roncavam perto, semelhando o unissono cavo e amedrontador de milhares de carroças rodando juntas.

—Onde nos havemos de recolher, Mary?—disse D. Francisco.

Em qualquer parte. Sob aquelle frondoso castanheiro, que ali perto nascera isolado n'um tenue veio de agua que resumbrava na base de um penedo. Os cavallos tinham na pelle tremuras de susto; levavam-nos pela redea para o designado abrigo. Os miseros pastores chegavam n'esse momento á estrada, inquietos, receiosos de que as ovelhas se lhes trasmalhassem e como a chuva engrossasse rapida e subitamente, recolheram-se com o gado n'uma grande cova, de proposito aberta no flanco do monte, para estes casos, ali frequentes. Mary e seu pae, protegidos pelo velho castanheiro olhavam silenciosos e contristados para aquelles rotinhos e humildes, em monte com as ovelhas, cheios de inquietação com medo que o trovão apavorasse os animaes. E do interior da cova consideravam cheios de admiração aquelles senhores de aspecto tão rico e maravilhoso, mais bello do que o dos santos da igreja.

As bategas de agua cresciam em força, o ribombo troava com arrogancia por cima dos pincaros eminentes. O fidalgo observava o ar com serenidade receiosa, a solemne barba branca de patriarcha biblico cobrindo-lhe o largo peito. O vento soprava com violencia, os movimentos ondulatorios da atmosphera formavam vagas, como n'um mar aereo. Tinham desapparecido as povoações, os campanarios, os cimos das montanhas por traz da densidade da chuva. Restringira-se-lhes a muito pouco a área visual, tudo estava coalhado n'uma densa nevoa, o aspecto das cousas era indefinido e vago.