—Durará muito?—disse Mary apprehensiva.
Estava a vêr que sim.
Fizera mal em não ter cedido ao aviso de seu pae. N'aquella vasta solidão principiava a sentir-se n'um desamparo tenebroso. Ennegrecia-lhe o espirito com a apparencia lugubre das penedias suprajacentes. D. Francisco vendo-a pallida e contrariada, apparentava agora conformidade e riso, para a fortalecer. Tinha medo de algum desanimo, de qualquer crise de nervos. Era esta a querida filha da sua alma, o seu unico enlevo, a alegria, o conforto no despovoado da viuvez e da velhice. Mary sentia na alma a amargura de ter contrariado a previdencia do bom velho, de quem era a luz dos olhos. O aspecto do céu de cada vez mais orgulhoso e ameaçador.
Os sons medonhos reforçados nas quebradas dos montes, rolavam como grandes e implacaveis penedias, que viessem lá do alto para tudo aniquilar. Já os trovões concorriam de todos os lados, arrogantes e magestosos, rebentando perto em estalidos breves e seccos, como milhões de taboas a baterem umas contra as outras. Laminas de fogo de coriscos rasgavam o ventre das nuvens e esta luz luarenga cobria a paisagem de um tom funereo. Havia no ar uma escuridão de caverna sem que a noite já começasse a abraçar o mundo no seu amplexo triste. A natureza em combate tinha olhar terrificante. Nem o conjunto de toda a artilheria do mundo, cem vezes augmentada, vomitando ao mesmo tempo granadas e materias inflamaveis pela bocca redonda dos seus canhões, daria ideia d'esta formidavel batalha, ferida nos paramos sombrios do ar.
—Meu pae!... tenho medo!...—confessou a corajosa Mary.
As ovelhas conservaram-se junto dos pastores mettidos na sua cova, como timidas creanças perto de sua mãe. Os pequenos de joelhos, as mãos erguidas, em lagrimas de receio pediam misericordia em altos gritos dirigidos a Deus clemente. Desejava D. Francisco animal-os, soccorrel-os, trazendo-os para juncto de si; porém não lh'o consentiam as catadupas de agua, que já vinham pelas gargantas dos montes sahir ali perto, em formidaveis ribeiros. Elle ainda conservava Joe pela redea; porém Mary já havia abandonado Luck, que de olho allucinado, e tremendo em todo o corpo, resfolegava com estrondo pelas narinas largas. O pavor crescia, o formidavel estalido do trovão rebentava quasi sobre o castanheiro, innumeros relampagos fuzilavam ao mesmo tempo pondo-lhes o espirito em confusão.
—Tenho muito medo, meu pae!—confessou Mary, tremula e agitada.
Como poderiam sahir d'ali? Impossivel!—ponderou o coração amargurado do velho. Esperava que a furia da tempestade diminuisse, que o horror do trovão abrandasse, que o fogo dos relampagos lhes não tirasse a vista, que a chuva fosse menos copiosa... A pobre Mary já o não ouvia, pallida e assustada, sentiam-se-lhe ranger os dentes, a ella que sempre fôra a ousadia, o denodo, o vigor moral de seu pae.
Os dous corações batiam n'um ambiente de terrores, os ares incendiados por chammas infernaes, os ouvidos surdos por causa dos pavorosos sons que desciam do céu, ou resurgiam das corcovas da montanha. De toda a parte o mundo parecia ameaçado por castigos e invectivas de morte. No bojo largo e mysterioso das nuvens parecia esconder-se, ainda silenciosa, a suprema voz da infinita maldição! Vencendo espaços com o desespero dos demonios escorraçados do céu na noite biblica, essas nuvens pareciam que accarretavam do começo dos tempos a punição de crimes accumulados por seculos de perversidade!...
Os aterrados pastores continuavam de joelhos, as mãos supplicantes, pedindo misericordia em agudos gritos. A convulsão do franzino e esbelto corpo de Mary communicava-se ao tronco do castanheiro frondoso e para ella todo o mundo se sentia abalado e tremente. D. Francisco abandonou-a, por um momento, emquanto procurava colher as redeas de Luck, que se ia separando encolhido e agitado.