A confusão de todas as cousas attingira n'este instante imponencia d'assombrar! Um forte e vibrante estampido, acompanhado de illuminação subita de raio, rebentou sobre a arvore protectora. Luck então fugiu espavorido; Joe repuchou fortemente o braço do fidalgo, que se sentiu cahir, as pernas sem vigor. Instinctivamente, D. Francisco, lança os olhos para o castanheiro, e vê no rosto funereo de Mary extinguir-se a vista, o tronco flexivel como um vime inclinar-se, todo o corpo, qual estatua de alabastro, cahir sobre a terra n'uma compostura sepulchral!!...
II
Fora fulminada? estava morta?!... O rosto de seu pae era de um pavor dantesco!... Luck despenhara-se pelo monte, em saltos infernaes! Joe, menos nervoso, tremia humilde junto de seu dono.
O desditoso velho atirou-se com desespero sobre o corpo livido de Mary, que vira pender como uma açucena, impellida por vento maldito. Encontrava-a sem energia corporea, o aspecto de completa ausencia de sensibilidade, os olhos meio cerrados. Queria aquecel-a com os seus carinhos, dar-lhe o movimento do proprio sangue! Estreitava-a nos braços, agitava-lhe o corpo, sacudia-a para lhe dar vida. De apavorado emmudecera, não tinha lagrimas para exprimir tamanha dôr; mas por fim a sua voz rugiu formidavel como a do leão, como a do mar, como a da tempestade:
—Mary!... Mary!... Accorda, Mary!...
As creanças tinham corrido n'um instincto de soccorro. Augmentavam a dôr do quadro com o chôro desesperado, que acresciam ao do inconsolavel pae, que chamava sua filha em altos brados dirigidos ao céu crudelissimo.
D. Francisco erguera-se, com o corpo de Mary intimamente unido ao seu. Que loucura esta! Pensar em reanimal-a communicando-lhe o seu calor, dar-lhe sensibilidade com o vigor do affecto, fazel-a soffrer com a grande e immensa dôr que o suffocava! O corpo estava exanime; pendiam-lhe os braços, cahia-lhe a cabeça, as pernas sem energia, o tronco vergando-se como um junco. O ribombo do trovão continuava atroz: os relampagos successivos illuminavam as serras lugubres, as altas penedias de uma grandeza cyclopica, as humildes aldeias e campanarios, as veigas de uma passividade mortal.
—Chamae gente!... Chamae gente!...—gritava D. Francisco aos pastores, que d'elle se tinham acercado n'um intento piedoso.
As creanças identificadas com aquelle soffrer incomparavel, gritavam inutilmente! Quem as ouviria? O logar ficava longe, a sua casa distante, a magestosa garganta da tempestade engulia-lhes a voz.
Talvez o velho cabreiro esperasse a primeira aberta para lhes vir em auxilio!... Unica e misera esperança!...