Os enxurros desciam ovantes em catadupas pelas gargantas dos montes: os caminhos eram ribeiros, nas fundas corgas sussurravam as aguas como grandes rios, a ira do céu parecia crescer a todos os momentos.
—Chamae gente!... Chamae gente!...—repetia o fidalgo com o corpo de Mary estreitamente abraçado, exprimindo no semblante a maior dôr que no mundo possa existir.
Clamavam as creanças com maior desespero e força; porem as suas vozes perdiam-se no infinito espaço. Um instante houve em que esses gritos foram triumphaes, como se um soccorro afortunado viesse espavorir a desgraça.
—Pae!... Pae!...—exclamaram com alvoroço.
Era o robusto montanhez que despresando perigos, subia em corrida a encosta, para proteger os filhos, e livrar o rebanho das correntes impetuosas.
Ao deparar com a scena horrivel que os pequenos lhe apontavam, como produzida pelo fogo sinistro do raio, a sua mudez e espanto eram formidaveis. Obedeceu como automato aos monossylabos de D. Francisco, ageitando-lhe o cavallo para elle montar.
E emquanto montava, as suas rudes mãos e os braços negros de rachador, sustentaram por instantes o franzino e gracioso corpo de Mary, para o entregar ao velho, que o recebeu com sofreguidão e ainda com esperança!...
D. Francisco voltou n'um galope desesperado, a filha amantissima achegada ao seio caloroso. A sua ideia era alcançar em minutos o portal da querida habitação, mandar uma legião de criados á procura de soccorros que lhe restituissem Mary. Joe parecia identificado com a grandiosa tragedia que se passava na alma de seu dono! Era uma corrida de phantasma, atravez dos espaços do primitivo cahos! Um homem robusto, ainda que velho, cabello e barba sujeitos ao vento, despresando chuva, trovões e relampagos, galopando furiosamente com o corpo de uma donzella estreitado nos braços, era o que viam passar attonitos os raros viandantes. Paravam tranzidos de espanto, ninguem se oppunha a esta marcha do desespero, e só exclamações se ouviam:
—É o fidalgo!... É o fidalgo!...