Luiza commentou chorosa:

—São terras onde ha animaes que comem gente!... Quem sabe se alguma serpente me deu cabo d'elle...

—É celebre!—entendeu o cura. Eu tambem tenho feito esforços para saber noticias, mas tudo em vão!... É celebre! Pois ainda ha dez annos vos mandou o dinheiro com que arranjastes esta casa e comprastes os bens por ahi abaixo e não torna a dar accordo de si! É celebre! muito celebre! Quem será o ladrão que disfruta, a esta hora, o que elle tanto lhe custaria a ganhar! Sim, porque elle fortuna havia de ter ganho!

—Isso é o que menos importa—interferiu Luiza. Aqui ha que farte para elle e para nós. O que queriamos era vel-o vivo e são.

—Pois apega-te com Nossa Senhora da Boa Viagem, que ella t'o trará. Eu vou-me até casa que são horas de minha irmã ter o caldo na tigella. Adeus e devoção, Luiza.

—Ah! isso tenho eu, senhor! Promessas e resas olhe que as faço todos os dias.

II

Havia muitas pessoas na freguezia que se lembravam da partida do filho do Miguel. Era um rapasinho carinhoso, serviçal e bem comportado. Delgado de corpo, tez morena, sorriso sempre conformado, fazia gosto vel-o ajudar á missa; porque procedia com grande promptidão e esmero. No caracter era a mãe, sempre boa e humilde; no desembaraço o pae, sempre agil e resolvido. De quatorze annos não havia, por ali, outro para mandar á villa n'uma pressa de chamar o medico ou buscar um remedio. Quer fosse de dia ou de noite, quer os caminhos estivessem cheios de neve ou de lama, o Luiz nunca se escusava, nunca procurou uma desculpa. Nem o medo do lobo, nem o das trovoadas o impedia de ser prestimoso. Miguel todo se ufanava com este brio do rapaz, e com a atmosphera de sympathia de que o via cercado. E quanto a estudo? Isso dizia o mestre que nenhum lhe levava a melhor nos desafios á taboada, e na doutrina. Até era uma pena não ser possivel ordenal-o em Braga, para um dia vir ali dizer uma missa nova, e verem-no do pulpito lançar a voz da religião. Porém, o Luiz, ainda que o podesse conseguir com esmolas, lá para essa vida de padre não o chamava a inclinação e toda a sua idéa era embarcar, para tirar seus paes da pobreza em que viviam e da labuta constante em que se amofinavam. Apesar do Brazil ser a commum ambição da gente d'aquella provincia, isto não tinha prognostico favoravel das pessoas que lhe conheciam o genio perdulario, o gosto que fazia, já em creança, em dar tudo que possuisse. Um pedaço de pão e presigo com que lhe pagassem qualquer serviço prestado, logo o repartia com os rapazes da sua egualha, ou com algum pobre que encontrasse, ou mesmo com qualquer cão esfomeado que estivesse a olhar para elle quando comia. E não era porque em casa lhe sobrasse, pois Miguel, n'esse tempo, tinha mais tres filhos vivos e era elle só a trabalhar, moirejando nas terras que são ingratas para compensar o esforço rude do homem, que só tem a sua enxada para as servir. Estava na indole de Luiz dar tudo, repartir com quem quer que fosse. O coração não lhe soffria o possuir coisa de que os outros não compartilhassem. Os unicos motivos de zanga de sua mãe para com elle, vinham de conhecer que lhe roubava pão para os pobres que passavam, quando ella não tinha bastante para si.

—Tu és tolo, rapaz!—reprehendia-o. Vês que esta fornada me não chega até á outra, e tiras-me a brôa da masseira! Olha que ainda podes andar como esses mandriões de pedintes, que só tem por seu mal, não se quererem achegar ao trabalho.

Luiz ficava triste, por, a santa creatura que era sua mãe, não comprehender o intimo goso que elle sentia em fazer bem. Amargurava-o esta idéa, pois não admittia maior consolação do que a de dar, mesmo aos que não tivessem necessidade. O rosto de agradecimento que os beneficiados faziam ao receber, era o premio unico a que aspirava. Mas havia mais alguma coisa n'este animo dadivoso: era o pouco geito de possuir em proprio, o que quer que fosse. Angustiava-o a preoccupação de guardar. Viver sempre na abstracção, na inconsciencia do que valem as coisas materiaes, era a caracteristica do seu coração. O prestar serviços sem idéa de interesse ou recompensa completava-lhe a indole bondosa. Sua mãe estava sempre a prégar-lhe: