A um signal affirmativo, os consortes, choraram copiosamente. Até parecia mal ver um homem sadio e forte, como era então Miguel, limpar os olhos á grosseira estopa das mangas da sua camisa e soluçar com a cara escondida. Porém aquelle contentamento era mais forte do que elle; em coração humano não presumia outro egual. Para se desculpar, perante o amigo de Luiz, ia dizendo por entre lagrimas:
—O senhor não pode comprehender o que isto é. Se soubesse o que me vae cá por dentro... Estou capaz de estoirar de alegria.
O feliz mensageiro sentia-se transitoriamente envolvido na mesma atmosphera de felicidade que respiravam os dois casados. Ligando-os a si n'um só abraço disse:
—O que desejo é que por muitos e largos annos gosem o que tanto amam, e que isto seja na companhia de seu filho, que estou certo se não demorará muito.
Depois combinou com elles a maneira de receberem o dinheiro que estava no Porto, á ordem de Miguel. Para lhes facilitar a empresa já tinha tractado da transferencia da quantia para a villa proxima, onde da mão de negociante honrado podiam recebel-a toda d'uma vez, ou parcelada, conforme melhor conviesse. N'esse mesmo dia, Miguel acompanhou o amigo de seu filho para pessoalmente ajustarem com o tal negociante o recebimento em questão.
III
Este notavel successo trouxe á memoria dos do logar o bom rapasinho que Luiz sempre fôra; como era geitoso no ajudar á missa, como, com desinteresse sympathico, se prestava a servir toda a gente. Não podia deixar de ser feliz, quem logo no começo da vida se mostrara tão diligente e bondoso. Deus, que é justo, ajuda de preferencia aquelles que o merecem, os que desde o principio se mostram attentos e respeitosos pelas coisas da religião. Entendiam-no assim e mostravam como exemplo d'isto a fortuna que acompanhara Luiz para poder alegrar a existencia de seus paes, garantindo-lhes um magnifico bem-estar, e proporcionando-lhes o goso de possuirem as terras que sempre haviam trabalhado.
A proposito recordavam o bello dia de maio em que elle partira. Muitos faziam o apparato de mencionarem meudas circumstancias, que agora representavam como se as tivessem deante dos olhos. Repetiam palavras, apontavam pessoas, e reproduziam detalhes. Que formoso sol o d'esse tempo! como elle aquecia o corpo e alegrava o espirito! O padre Clemente Carvalhosa, já então curava a freguezia e, por assim dizer, era o parocho, pois que o verdadeiro estava frequentemente em Braga, junto do senhor arcebispo de quem era amigo, e havia annos que por ali não apparecia. Como Luiz não tivesse vocação para o estado ecclesiastico, fôra o Carvalhosa quem influira para o mandarem para o Brazil, ver mundo, fazer-se homem, ganhar a riqueza com que voltasse a engrandecer a sua familia e a sua terra. Se o bom velho fosse egoista, forcejaria por conserval-o para o ajudar á missa, tratar das coisas da egreja e auxiliar o mestre escola. Mais tarde poderia mesmo conseguir-se que ficasse substituindo José Fortunato, o que era alguma coisa de representativo. Porém, reconhecendo que aquella intelligencia naturalmente viva se acanharia na estreiteza d'uma aldeia, o bom cura é que promoveu, entre a melhor gente da freguezia, uma colheita de donativos para vestirem o Luiz do Miguel e pagarem-lhe a passagem para esse Brazil, terra prodigiosa, onde o oiro rebenta das arvores com a bondade dos fructos que alimentam o homem. Sentia no fundo do seu generoso coração, que era uma boa obra a que emprehendia. Quem sabia se não estava trabalhando para o esplendor das festas da sua egreja, para reformar e accrescentar materialmente a riqueza do templo, attenta a vocação que Luiz mostrava para as coisas santas? Não seria amesquinhar as bellas promessas de caracter de rapaz tão bom, tão docil, tão intelligente, o prendel-o entre aquellas montanhas de limitado horisonte?
—Mas, senhor,—entendia a mãe—olhe que elle para conservar dinheiro não lhe serve. Quanto ganhar, quanto dá!
—Cala-te, mulher,—contestou Miguel—deixa ir o rapaz que no mundo é que elles se armam gente. Tenho-lhe amor, pois é meu filho, mas o senhor cura é que diz bem.