Aquelle que assim falara com desapego, é a quem mais custou o desprender-se de Luiz, no assignalado dia da partida, n'esse bello maio em que o sol aquecia o corpo e alegrava o espirito d'um modo differente do actual. Luiz com o seu caracter submisso ia de vontade; mas não tinha n'essa occasião, propriamente idéa de ambição ou opulencia, nenhum proposito de no futuro deslumbrar os simples da sua aldeia. Commovido e sem fala, as lagrimas rebentavam-lhe dos olhos, como pingos de seiva d'uma arvore quando chora. Se seu pae se não podia desagarrar d'elle, tambem elle se não podia desagarrar de seu pae, nem de sua mãe, nem dos rapazes que ficavam. No fundo da sua retina estampara-se indelevelmente e para sempre, toda aquella paizagem da sua alma—a modesta egreja, com o campanario exterior d'um só sino; o musgo das paredes dos caminhos estreitos; a largura dos campos onde rebentava a herva; a sobranceria dos montes altos, artilhados de penedias temerosas! Sentira que a alma, n'esse dia de sol encantador, se lhe dividira em duas partes: uma ali ficava pendurada dos galhos das arvores que se enfolhavam, dentro da pobrissima casa onde nascera, e nas encostas a escutar o gemer das fontes e dos regos d'agua; a outra, a mais dura e resistente levava-a comsigo. O cura Clemente Carvalhosa, ainda no vigor da vida e saude, abençoara-o no limitte da freguezia, até onde o acompanhara, e n'esse momento, Luiz, supplicante e com as mãos erguidas pediu-lhe:
—Quando a Russa tiver a cria, senhor, peço-lhe que a deixe crescer e que a não venda, que eu mando dinheiro para a pagar.
A Russa era a egua do cura. O rapasito tinha-lhe grande affecto, adquirido no habito de a levar a beber, e de a acompanhar quando o sacerdote ia para algum officio, no que substituira o creado Simão.
Na villa é que se apartou de sua mãe e de seu pae, pois d'ali em deante seguia na companhia d'outros emigrantes que levavam identico destino. Na volta, a excellente Luiza, veio considerando se aquella dôr que soffrera no apartamento incluiria a redempção da sua pobresa. Valeria a pena tental-a, para quem desde o nascimento fôra destinada á vida do trabalho e das privações? Quando ella o dera á luz, bem como aos outros que lhe tinham morrido de bexigas, já fôra na perspectiva de os prender á terra negra, cavando-a com a enxada, para d'ella tirarem o pão duro de que se alimentariam. Isto era a vida assente na pobreza e conformidade: o que Luiz ia buscar longe, o que seria? Com os olhos razos d'agua, a pobre mulher, só percebia o esbatido d'um mar ennevoado e sem fim, a negrura d'um mysterio lugubre que formava esse porvir incerto...
IV
Nos primeiros tempos d'ausencia, receberam frequentes cartas repassadas de affecto e saudade, ás vezes com signaes de lagrimas que ennodoavam o papel a ponto de se tornarem inintelligiveis algumas palavras. Porém, passados tres annos, a correspondencia cessou quasi de repente e espalhou-se o boato de que Luiz morrera, sendo depois isto desmentido por outros dizeres, egualmente sem base. N'estas alternativas, de luto e contentamento, passaram-se os dias longos e as noites infinitas, limitando-se os dois paes a reverem-se no seu passado, modesto e feliz, acreditando Miguel na eterna formosura de Luiza e esta no garbo e valentia perpetua de Miguel. Até que um dia chegou esse bom mensageiro, que lhes trouxe os meios para reformarem a moradia e comprarem as terras, e com este facto lhes voltou a esperança, sempre risonha e carinhosa, de que seu filho havia de chegar em breve. Além das palavras de bom agouro, que o desconhecido deante d'elles pronunciara, receberam, logo após, carta de Luiz, em que lhes falava com ternura do possivel regresso e insistia especialmente na velhice tranquilla e abastada que procurava garantir-lhes. Porém, depois d'este promettedor acontecimento, que lhes deu annos de prazer emquanto reedificaram a casa, levantando-lhe um andar, emquanto plantaram videiras e enfeitaram a quinta, com arvores novas e um bello muro em volta; Luiz nunca mais escreveu, estabelecendo-se completo silencio, similhante ao primeiro que parecera de morte definitiva. Fartou-se o padre Clemente Carvalhosa de lhe escrever sentidas cartas, falando de tudo quanto podia haver de mais amoravel e terno no coração: a velhice dos paes, que não poderiam aguentar-se por muitos annos; a commodidade da habitação, que elles tinham arranjado ostentosamente para o receberem; a belleza e transformação dos campos em que elle labutara e brincara quando creança. Até lembrava a recommendação, que Luiz fizera no dia da partida, para não vender a cria da Russa: a esse proposito notificava-lhe que, tanto esse animal como a mãe, haviam morrido de velhos, em grande tranquillidade e ventura; mas que na mesma côrte da residencia havia outra egua descendente da segunda, que era a estampa viva das saudosas extinctas. Nenhuma d'estas amoraveis e longas dissertações teve resposta, o coração de Luiz tinha-se de certo ressequido, pois já não vivia para tão commoventes memorias. Receberia elle as cartas? Não lhe seriam entregues por ter mudado de terra?!... É no que assentavam, afastando sempre a hypothese da morte, como castigo cruel e immerecido. Mas ao fim d'um crescido periodo de annos, sem noticias de nenhuma especie, experimentados por muitos e successivos desenganos, atormentados pelos pensamentos negros que traz a velhice, Miguel disse, um dia, em voz sumida, para não assustar a companheira:
—Talvez elle morresse... talvez....
Quem sabe?! Ha diversas maneiras de morrer. O corpo póde andar, no mundo, aos solavancos e encontrões, e ter desapparecido a vida com a alegria da alma. N'este domingo de março soalheiro, os dois velhos estavam á porta de sua casa, serenos e meditativos, mas conformados; foi o bom cura que lhes veiu incautamente turvar o coração, recordando-lhes o filho morto, ou eternamente desapparecido, o que para elles valia o mesmo. E quando ambos retomavam a tranquillidade em que estavam antes da chegada do sacerdote, ficando mudos, com os pés extendidos ao sol e a cabeça resguardada para que o calor os não adoecesse, sentiram passos no caminho que bordeja a quinta e viram que um estrangeiro se encaminhava para elles. Quem seria? Era um homem andrajoso, qualquer viajante pobre em caminhada para longe. O seu aspecto de miseria commovia... Trazia as botas cambadas, a camisa suja, as calças roidas; n'um saquito enfiado n'um pau, levava ás costas, toda a sua riqueza. Que ar esmorecido e doente! que longa barba mal tratada! como vinha dorido dos pés! Ao approximar-se da cancella, que dava ingresso no quinteiro, parou saudando com o chapeu esburacado. Miguel, com vista mais fraca do que Luiza, perguntou a esta:
—O que é?
O recemchegado é que respondeu em voz de cançado: