—Um pobre viandante que pede uma sede de agua. Dão-m'a senhores?

A velha disse com expressão de carinho:

—Entre, faz favor?... Quanta agua quizer!...

Não mostrou medo, nem repellencia, nem suspeitas d'aquelle homem roto, que podia ser um ladrão assassino. Foi ella mesma que veiu levantar a caravelha da cancella, para que elle entrasse, pois que o via sem forças para tão pouco... Conhecia-se que estava enfraquecido pela fome e pela longa jornada. Quem seria este misero de aspecto tão soffredor? Algum d'esses infelizes que vivem afastados durante muitos annos de todas as affeições e carinhos, e voltam ao seu lar depois de longa e dolorosa penitencia. O recem-vindo sentou-se n'uma tosca pedra que estava perto de Miguel, pousando ao lado o pobre saquito, que era a sua riqueza. O penoso suspiro que do peito lhe sahiu ao descançar, condensava, de certo, uma vida aspera de soffrimento e exprimia talvez o desejo d'um periodo de socego, ainda que fosse na sepultura. Quando Luiza veiu de dentro de casa, com a malga, branca de jaspe, cheia d'agua limpida e fresca, elle tomou-a nas duas mãos, emborcou-a com satisfação, tendo no fim de beber um respirar de saciedade. Os seus olhos amortecidos pela desgraça, tiveram brilho carinhoso e contente ao restituir a malga. Agradeceu este favor com um sentimento que lhe veiu do fundo d'alma:

—Deus-lh'o pague!—disse.

Conservou-se silencioso durante muito tempo, a cabeça curvada para o peito, como um vagabundo que na alma procurasse o seu destino. Os dois velhos contemplavam-no compadecidos: nos seus corações amoraveis e bons apparecera um sentimento de infinda piedade. Não tinham elles tambem um filho, que assim andava perdido no mundo, vagueando por longes terras? O bem que elles, a este desconhecido, podessem fazer, outrem, no ponto distante onde estivesse Luiz, o retribuiria, soccorrendo-o se elle necessitasse. Com o instincto dos que são captivos do infortunio alheio, advinhavam que junto d'elles estava um infeliz precocemente avelhentado. Não procuravam, com perguntas desnecessarias, perturbar-lhe a paz que elle parecia ter encontrado sentando-se n'aquella pedra, a olhar meditativamente o chão do quinteiro. Adivinhavam-lhe, pelo aspecto, soffrimento que na sua vida obscura e modesta, elles nunca tinham sentido. Por esse mundo fóra, as desgraças engrossam, ás vezes, tão rapidamente, como o ribeiro que passa no fundo da aldeia, quando recebe as torrentes pluviaes, vindas a roncar pelas encostas e pelos caminhos. Que significaria o silencio dolorido d'este desgraçado, que nos restos do seu vestuario deixava perceber signaes de que no mundo tinha sido alguma coisa mais do que aquillo que ora apparentava?!...

O viandante levantou lentamente a cabeça. Primeiro fixou a vista agradecida, amoravel e sem reservas nos que lhe tinham morto a sêde. Apesar da estranheza d'aquelle semblante, não causou aos dois velhos impressão, de que fosse o de algum doido que andasse desgarrado pelos caminhos da aldeia. O seu olhar era absorto, mas tranquillo e bondoso. Ainda que estranho ali, não lhes causava receio, nem pavor. Ao contrario: do imo da sua sensibilidade subia-lhes, a favor do misero, um formoso grito de benevolencia e compaixão. Aquella testa sulcada pela desventura, o rosto macerado pela desgraça, dizia alguma coisa de pacifico e sublime, como a luz sahindo de entre nuvens caliginosas no meio de rude tempestade. Os dois septuagenarios reconheciam que a apparição de tal infortunio estava tomando sympathico logar na sua pacifica existencia... «Este desconhecido —pensavam—ainda que em qualquer tempo de sua vida, tenha sido mau e perverso, agora só parece ser desventurado!» Isto originara-lhes no seio a mesma piedade que sentiriam se áquella casa se viesse recolher um lobo ferido, ou mesmo, se um abutre lhes cahisse exanime junto da capoeira de que fôra o flagello. Esses animaes, tantas vezes escorraçados com alaridos de colera, teriam elles animo de os acabar, quando os reconhecessem indefezos e supplicantes nas vascas da morte?! Não: o findar da vida merece sempre compaixão; a desgraça redime de todas as culpas perante os corações bons e sensiveis.

V

Mas este pobresinho não era perigoso e não poderia nunca ter sido perverso: tamanha era a uncção maguada e soffredora que exprimia o seu rosto retalhado pelas rugas, o seu olhar extincto pela longa miseria! Havia n'elle tanta meiguice e affecto que só lhes provocava misericordia e caridade. Se o pedisse não lhe recusariam agasalho em sua casa. Que valia um logar junto da lareira, uma manta para cobrir os lassos membros sobre um pouco de colmo, uma tigella de caldo para aconchegar e fortalecer o estomago? De mais tinham elles, sem pessoa a quem o legassem. Uma obra de misericordia, offerecida por intenção d'aquelle que lhes dera o bem-estar de que gosavam, era acto meritorio que lhes consolaria o espirito e teria certo apreço perante Deus. Uma voz interior affirmava-lhes que ali estava um infeliz digno de piedade: e sem muito saberem porque, ia-lhes dispertando sympathia o sorriso lento que na sua expressão se abria, á maneira que contemplava os dois velhos, que examinava a casa toda caiada de fresco, a latada que cobria o quinteiro, e o saudavel aspecto dos campos da propriedade em redor. A horta, ali mesmo ao lado, estava opulenta de couves e grellos; as borbulhas das videiras principiavam a engrossar; a temperatura era tepida e carinhosa; o misero parecia respirar, n'este ar, felicidade nova e paradisiaca. Similhava um cego, desde muito privado do goso da vista, que readquirindo-a de surpreza, entrasse gradualmente n'um periodo de enthusiasmo lento; ou então, o homem que recolhido, por longos annos, em lugubre masmorra, fosse restituido á liberdade e á luz durante um somno, achando-se incredulo pela ventura reconquistada.

Este silencio demorado, e o demorado exame que o estranho estava fazendo de tudo quanto em volta se via, principiava a enredar em pensamentos vagos Luiza e Miguel. Primeiro passeara em volta com os olhos do corpo; mas depois, uma alegria crescente, lhe fôra desabrochando no rosto escalavrado, a custo, como rebenta a bonina em terreno duro. Os velhos, apesar de suggestionados por aquelle todo de bondade e infortunio, houve um instante em que na mente lhes passaram receios, julgando-se agora na presença d'um louco. Pois que podia significar esta mudez, quasi familiar, da parte de quem ali era estranho e entrara sob pretexto de pedir uma sêde d'agua? Não se atreviam a interrogal-o, pois grande é a timidez da decrepitude. Annos antes já tudo estaria aclarado: pois que Miguel sempre fôra homem de grande desembaraço e não teria papas na lingua para perguntar quem era e o que queria do mais. Agora, porem, a edade e o corpo paralytico influiam no acanhamento do animo. Os septuagenarios entreolharam-se, volvendo ambos, depois, a vista para o peregrino ao qual Luiza disse: