—Parece gostar muito d'este sitio...
—Oh! muito!—exclamou. Tudo isto lhes pertence?
Circumdou de novo o olhar pelo eido e pelos campos, extendendo-o até ao pinhal que se erguia n'uma ligeira collina.
—Em quanto Deus quizer—respondeu Miguel. E vocemecê d'onde é? para onde vae?
O desconhecido teve no rosto uma expressão de infinita paz e tranquilidade, que não deu idéa clara do seu pensar e destino. Sorria ligeiramente, com a incomparavel doçura d'uma creança a sonhar. Olhou os dois como se olham amigos e, Miguel, animado por esta expressão confortativa, ponderou:
—Sim; porque vocemecê ha de ter por força uma terra...
—Tenho, tenho uma terra...
E ficou attento para o chão inculto do quinteiro, como se sentisse difficuldade em designar o ponto do globo, onde essa terra se talhava.
Recahiu no silencio carinhoso que até ali conservara, mas com rosto tão aberto em bondade que, de todo, deixou de causar receios. Examinou a limpeza da casa em que os velhos moravam, e pensou na conformidade de existencia que dentro d'ella se passaria. Reinava, decerto, n'aquelles entes, a feliz paz da consciencia; desconheciam as perturbações agitadas da vida das cidades. Não pensavam em alardes, nem tinham ambições: talvez durante todos os seus annos, nem uma só noite tivessem abandonado aquella ditosa morada. Quem sabe o que o estrangeiro estaria calculando na sua mente, que pensamentos de felicidade o estariam a encantar!?... Talvez, depois de vida desventurosa, viesse encontrar n'aquelle quadro simples o primeiro refrigerio para as suas dores, a primeira idéa clara do que é a ventura. Os pacificos septuagenarios, pareciam comprehender, que o seu viver ditoso estava reconfortando a alma do misero que tinham na sua presença. Além de não ser rasoavel negarem-lhe um tal balsamo, encantava-os que assim fosse. Por isso, orgulhosos da sua modestia, deixavam que o homem andrajoso tudo apreciasse, sorridente e sem inveja. A casa juncto da qual se encontravam tinha aspecto de nova, as janellas com vidraças viam sobre a latada do quinteiro, o alpendre, debaixo da varanda deitava para o lado do caminho, uma escada exterior mostrava ingresso ao andar de cima—accrescente feito para a chegada de Luiz, se a Deus prouvera, guial-o um dia para ali. Como fossem inimigos de grandezas, apesar da casa assim reformada, nunca abandonaram a parte terrea conservando ahi a sua moradia. A cosinha, á porta da qual estavam, era a mesma em que viveram com os filhos; ao lado havia o quarto soalhado em que dormiam agora, como sempre. As transformações n'este pavimento consistiam em que o que d'antes fôra côrte de gado servia agora para adega, salgadeira e casa de recolher a lenha no inverno. Ao fundo d'um telheiro, armado cá fóra, é que guardavam as duas juntas de nedios bois, os mais bellos do logar. O chiqueiro do porco e a capoeira das gallinhas ficavam encostados ao muro, rente com a casa. Tudo designava certo bem estar, conforto, e até opulencia, dentro da modestia de camponezes.
Para onde iria o infeliz, que tinham deante dos olhos não o sabiam, visto que elle o não quizera dizer; mas o que sentiam, com a intuição das almas simples, pouco habituadas a luctas, é que sendo a sua figura, quando o viram entrar a cancella, a d'um infeliz retorcido pela miseria, agora, ao fim de pouco tempo, e depois de reconfortado na contemplação de todas aquellas coisas bem arranjadas, parecia mais alliviado do soffrimento que lhe alquebrava o corpo e a alma. Era outro, tinha-lhe feito bem o repouso sobre a tosca pedra, refrigerara-o a malga de agua limpida, consolara-o o aspecto feliz dos velhos que estavam ao sol, esperando, n'este santo domingo, a hora do jantar parcimonioso, apesar de na panella haver carne e salpicão que elles ambos comeriam regalados, agradecendo a Deus tamanho beneficio na velhice. Ao quinteiro chegava o suave odor do caldo gordo e fumegante, e não tardaria que Luiza se levantasse para ir á adega buscar o excellente vinho, para o beber de parceria com o seu homem e pela mesma infusa. Como elles seriam felizes, se n'esse bello e glorioso dia podessem compartilhar com o seu Luiz, que uma voz intima lhes dizia ainda viver, este bom jantar! Se tal felicidade lhes fosse dado poderem gozar morreriam contentes, não duvidando de que iriam direitinhos para o céu!