VI

O descanço sobre a pedra tosca; o sabor da agua com que o tinham alliviado da sede do caminho; o banho de luz e tranquilidade em que todo o seu ser se mergulhara durante longos minutos; e principalmente a ventura que adivinhava na existencia sempre egual d'aquelles casados de tantos annos, haviam transformado em pouco tempo o aspecto do infeliz. Sorvia deleitado o ar que aqui se respirava, sorriam-lhe os olhos na contemplação d'esta paizagem carinhosa e melancolica, desfaziam-se-lhe as rugas da face ao renascer-lhe na alma a alegria que, por certo, n'elle se finara havia muito. Como Miguel o visse mais tractavel e familiar no aspecto, ponderou:

—Vocemecê estava tão moido, que decerto vem de muitissimo longe.

—Oh! de muitissimo longe!...—repetiu o forasteiro com accento de grande amargura.

—Talvez d'essa Lisboa!...—entendeu o paralytico.

—Muito mais para lá!...

E fez um gesto largo, d'uma amplidão infinita, acompanhando-o com um olhar que fôra até aos confins do mundo.

—Do Brazil?—indagou Luiza com ancia e soffreguidão no rosto inquieto.

Um simples aceno affirmativo de cabeça, deu resposta á pergunta. E logo os rostos dos dois septuagenarios se alegraram, como se em crepusculo matinal vissem surgir d'entre as penedias o sol nascente. Ao mesmo tempo tiveram a mesma lembrança. «Quem sabe se este desconhecido nos poderá dar noticias do nosso Luiz?!...»—pensaram. Porém, antes de o inquirirem, sustiveram-se n'este pensamento triste: «Como se pode voltar do paiz do oiro, da opulencia e da ventura, assim pobre, mal trajado e n'um aspecto tão miseravel e desvalido!» E Luiza, compadecida, considerou com as lagrimas a rebentarem-lhe:

—Então é que não foi feliz, por lá... Nem todos o podem ser...