O estranho não respondeu logo. A sua phisionomia denunciava excepcional perturbação de contentamento, que os velhos não podiam apreciar por causa da nevoa de lagrimas que tinham nos olhos. Approximando-se, porem, dos dois, que uniu no mesmo abraço, disse soluçante:
—Seu filho está aqui, meus queridos paes!...
E passada que foi a primeira onda de alegria accrescentou:
—Mas venho muito pobre! Só possuo estes farrapos que me cobrem. Se soubessem quanto tenho soffrido!
—Pobre!—bradou Miguel com a sua antiga energia, sahindo-lhe a voz do peito, como o ronco d'um trovão do interior d'uma nuvem. Então de quem é tudo quanto aqui temos? Não fostes tu que o ganhastes, homem!?
E n'um gesto do seu braço revigorado pelo acontecimento, mostrava a riqueza que havia: a casa afidalgada, a horta abundante, os campos relvados que se extendiam para além, as videiras em promessas de rebentação, e o bello muro que circumdava a quinta todo caiado de novo.
Luiza, voltando os olhos ao céu, pronunciou com as lagrimas a correrem-lhe em fio:
—Nossa Senhora do Amparo ouviu as minhas rezas. Já podemos morrer em paz.
CRESCE O MAR!...
(a Antonio Candido).