Tarde calma e deleitosa! bella tarde de outono! Azul amortecido no ceu e a briza leve como o pensamento a perpassar na superficie da areia e a arripiar-se nas penedias que debruam a praia. Baixamar socegado! Balançam-se nos ares as brancas azas das gaivotas, que vão para o norte; e as velas dos barcos dos pescadores parecem ao longe outras gaivotas a emergir das aguas. Está deserto o areal; principia a nascer o marulho do vago infinito, que vem rolando á superficie como voz cariciosa e meiga. Avoluma-se de momento para momento, uiva, no começo como um leão pequeno, principia a dar côr ao silencio, que desce com a tarde lá do infinito céu. O magestoso sol fulgura, inclinando o facho de luz sobre as aguas; a poeira d'oiro que o cerca, forma-lhe a fofa cama, onde repousará durante a noite.
Tarde calma e deleitosa! bella tarde de outono, que, gerando sensações amoraveis em toda a natureza, attrahiu duas tenras creanças á admiração do mar argentado, e do mysterio formado de tranquillidade e luz, que no ar pairava. Eram dois irmãos, filhos de uma viuva, cujo marido o mar escondera para não mais lh'o restituir, e que morava em frente das ondas, na esperança de ainda ouvir a voz que a enamorara. O rapasito teria sete annos, e a pequena talvez cinco... não mais de certo. Enlevados na serena paz do universo, os leves corações palpitando de satisfação intima, viviam juntos nas sublimes regiões do absoluto, os innocentes, olhos pregados no reverbero prateado das aguas, os ouvidos attentos ao marulho cantante que os chamava como se fôra a voz de seu pae. Não era a primeira vez que na praia se encontravam escutando aquella voz suave, d'um rythmo dominante pela dolencia; e até já em muitas occasiões, a carinhosa mãe os prevenira contra as incontestaveis maldades, que as ondas encerram. Porem todo esse pavor artificial se tinha apagado na convivencia do mar, essas ondas que de longe vinham crescendo em ameaças, desfaziam-se impotentes contra as penedias dentadas da praia e a espuma branca e leve, como uma illusão, vinha-lhes lamber a elles, humildemente, os pequeninos pés enterrados na areia.
N'essa tarde calma e deleitosa, emquanto a mãe se demorava na sua labuta de camponeza, Tone e a Zefa, contemplavam o mar, o pavoroso mar que lhes prendera o pae, e reconheciam n'aquella tranquillidade bondosa um amigo que lhes sorria para os namorar. Mostrava-se carinhoso e terno, as aguas claras deixavam vêr no fundo branco as mais bellas das suas joias: seixos semelhantes a ovos de pomba; pequeninas conchas vazias e cavas, como petalas de rosas; algas multicores e rendilhadas; molluscos boiando agarrados ao musgo das penedias uns, outros presos á pedra formando com ella um só corpo inabalavel e insensivel. O anteparo dos rochedos negros, que elles costumavam respeitar nos dias de nevoeiro como phantasmas que se erguessem do abysmo, e que nas noites tempestuosas ali permaneciam afrontando impavidamente o perigo, n'este dia e n'esta tarde calma e deleitosa, eram serenos e fortes arrimos que os defenderiam contra as ciladas das ondas. As repetidas provas que tinham da sua estabilidade e solidez afoutavam-nos a consideral-os como protectores devotados. Pois não era instavel a luz que desapparecia, o céu que desmaiava, as aguas que se remechiam, a movediça areia que cedia ao peso dos seus pequeninos pés? Era. Só a rocha, a rocha escura e aspera, lhes merecia confiança; só ella reconheciam como bastante forte para resistir ao mar e á furia das tempestades. Para aquellas consciencias nascentes e timidas as pedras feias eram arrimo unico e protecção contra os receios escondidos nas palavras de sua mãe, que sempre procurara inimisal-os contra o mar.
No areal extenso, branco como uma longa teia de linho, Tone levava Zefa pela mão. Principiava o sol a avermelhar no horisonte. Mais uma vez os seus inexperientes olhos soffreram o singular deslumbramento de vêrem no meio da gloriosa chama, os anjos do paraiso com toda a sua bella legenda; era para lá d'aquella entrada em fogo que existia o céu, o logar escolhido para o Maravilhoso e Innarravel. Assim o indicou Tone com a magnificencia do seu saber:
—Olha Zefa: é o céu onde estão os anjos de Nosso Senhor.
A pequenita ficou mais uma vez presa na contemplação da patria celestial. O seu olhar azul prolongou-se para o infinito, n'uma visão sublime de candura. O seu imaginar via todas as maravilhas na athmosphera subtil e impalpavel, no doirado da luz, na angelical brancura de figuras meigas como a sua alma innocente.
—Como é lindo!—exclamou Zefa.
Foram caminhando, pela branca areia, as mãos reciprocamente apertadas, sentindo n'este contacto amoravel realidade de existencia e protecção mutua. Dirigiram-se a um rochedo que se lhes offerecia em suave e branda subida e d'onde podiam intemeratamente gozar tudo que os maravilhava.
No mais alto d'essa pedra escura, roida pelas ondas, a grata aragem agitava as leves camisinhas de pobre linho com que cobriam a sua nudez. Como o dia estivera calido, sentiam agradavelmente a benefica sensação de frescura passar-lhe nos cabellos, a amaciar-lhes a pelle. Do alto da enorme penedia, que lhes era pedestal, lançavam olhos ao largo e aspiravam o cheiro acre e forte que vinha das aguas que sussurravam. Impavidos e cheios de toda aquella grandeza que se lhes impunha, reconheciam-se enlevados nas maravilhas, que os sentidos percebiam nas ondas e no céu. E Tone disse com effusão:
—Olha o mar Zefa! É ali que está o pae!