Apontou vagamente para esse infinito d'Além, que o olhar azul da pequenita abraçou n'uma sombra de tristeza e saudade. Havia na sua expressão de limpidez seraphica, alguma coisa de dôr ou meiga ternura, que se espalhou pelo ar fóra escurecendo-o. Era ali que estava o pae! E o que seria ali?!...
O sol semelhava fogo voraz que incendiasse o céu. Parecia um instante de perigo, tremendo para o universo, esse em que a immensa chamma irradiava do horisonte. Só o grande poder de Deus, com um gesto formidavel e omnipotente, poderia extinguir o brazido ameaçador! Se assim não fosse, o que poderia acontecer á terra, ao mar e ás estrellas se essa cólera de lume se estendesse a toda a amplidão infinita? Seria uma grande desgraça reduzir a Nada tudo quanto era bello e grande e os maravilhava enchendo-lhes a alma de grandiosas aspirações. A briza agitava-lhes as camisinhas de grosso linho, os cabellos incultos fluctuavam e as duas creancinhas viveram um momento em grande terror!
Porem a intervenção providencial manifestou-se: o que era incendio foi-se apagando, a luz tornara-se d'um deslumbrante alaranjado primeiro, depois d'um roxo terno que franjava o azul. Uma nuvem que ao longe estava suspensa sorria-lhes do alto com o seu roseo carinho. Parecia um resto de tunica d'anjo, que andasse perdida no ar.
Tamanho encanto sentiam as duas creanças, que nem davam pelo marulho das ondas, que já se agitavam perto. E quando os seus bellos olhos sobre as aguas desceram, entertiveram-se a contemplar o redomoinho variado que ellas faziam, subindo lentamente até ao sopé do rochedo, para depois se retirarem com humildade. Havia n'isto carinho e não cólera; a espuma, tão bella e tão branca, vinha tremendo sobre o dorso da vaga até se desfazer; as algas vermelhas, verdes e azuladas fluctuavam dormentes como n'um berço; os lindos seixos que formavam mosaico no fundo encrespavam-se, como se fossem de cera molle. Muito unidos, encontrando no corpo um do outro mutuo apoio, observavam interessados aquelle crescer do mar, posto que muitas vezes tivessem visto um tal phenomeno que sempre os encantava. A onda é constantemente nova: nunca tem a mesma força em dois momentos successivos, nem o seu enrolar é de forma egual, em duas d'estas irmãs gemeas nascidas par a par; o facto de se fazer e refazer perpetuamente dá a sensação d'um inicio de vida que surge. Por isso Tone e Zefa, mudos e risonhos, vendo uma vaga avolumar-se sobre outra vaga, consideravam quanto havia de carinhoso e amigo n'estes beijos da espuma á penedia onde estavam. O marulho grosso que vinha lá de longe inchando sempre, até rebentar na praia, entorpecia-os deliciosamente, deixando-lhes nos ouvidos uma ressonancia plangente. Era musica suave e rara, cuja melancolia se casava de modo admiravel com esse gradual escurecimento do céu, da terra e do mar, que os envolvia como n'um mysterio.
A tenue sombra que vinha do horisonte em redor, diluida em tenue orvalho, cercava-os d'uma atmosphera de goso triste que lhes desmaiava a expressão por sentirem muito.
Crescia o mar, a luz do sol apagava-se, já o pestanejar das estrellas no céu apparecia. Perto, mui perto, conheciam o bater das ondas na base do rochedo e o galgar das aguas pelo areal acima. Aquellas pequeninas almas voavam na amplidão, como serenas e doiradas nuvens, que levassem todas as celestiaes chimeras que haviam sonhado. O que os seus olhos ainda viam, e o que os seus ouvidos percebiam eram coisas que lhes embalavam o entendimento levando-o para mundos sidereos e encantadores. Esse gemer da sombra que escurecia o mar immenso, o rebrilhar da abobada celeste na grande festa da noite outomnal, faziam-lhes caricias no cerebro, sem lhes causar pavor. Esquecidas as existencias terrenas, só viviam na amplidão infinita, as pobres almas ingenuas!...
Os seus corpos sem peso, vagueavam suspensos no mundo ethereo; a imaginação alargava-se-lhes como o fumo do incenso ao evolar-se dos thuribulos sagrados na festa paschal. Iam intemeratamente por essa amplidão do mar, fortalecidos pelas idéas de mysterio com que a noite estrellada seduz as mentes infantis.
A sombra espessa cahira pesada e egual sobre a rugosa superficie das aguas, dissolvendo os rochedos da praia, esfumando, em tenue esbatido, o terreno onde estava a casa de moradia. Encantava-os a phosphorescencia das ondas, enfeitiçava-os o lacrimar argenteo do ceu, sentiam os corações subir em extasis... De todas as realidades só a brancura da areia percebiam estendida como um lençol e o ruido do mar que regougava a seus pés. Os ouvidos, porém, já de muito habituados a este som tantas vezes ameaçador, quantas muitas carinhoso e meigo, não presentiram que elle lhes rugia de todos os lados. Estavam cercados pelas aguas em revolta e só d'isto tiveram a primeira suspeita, quando pelo rochedo subiu uma onda, cuja espuma em flocos lhes voou para os cabellos incultos que fluctuavam ao sabor da brisa. A pequenina Zefa soffreu um rebate de susto, e agarrando-se mais fortemente a seu pequeno irmão, gemeu receiosa:
—Tenho medo!...
Tone despertou do sonho de poeta em que vivera! Como tivesse mais dois annos, sentiu o peso das suas responsabilidades. Era escuro e o bramido erguia-se energico e temeroso. Lembrou se então de descer da rocha e fugir ao perigo; mas, circumvagando o olhar inquieto, logo reconheceu o bloqueio que o mar lhes estabelecera. Titubeante, mas querendo fingir coragem, disse: