—Não tens medo Zefa. A gente vae-se já embora...

Que especie de soccorro esperaria Tone, sabendo que todos os dias aquelles rochedos da praia se escondiam nas aguas, amedrontados pela furia do protentoso mar?! Talvez o não soubesse dizer; porém o coração esperançado, sempre ouvira que, para lá da abobada celeste, existia o omnipotente Deus que valia aos desgraçados nas horas dos grandes infortunios. Um acto simples do seu querer, manifestado sobre o mundo n'um gesto formidavel, seria logo obedecido pelos mares e pelos montes, pelas estrellas e pelo sol! Era só apegarem-se com elle, levantarem o pensamento até junto do seu throno celestial, todo oiro e luz, e ali supplicarem cheios de vehemencia e fé!

Precisavam fazer um grande esforço, pois tinham de ir para além de tudo quanto se via no espaço infinito. E logo que o Pae-do-céu os ouvisse, aquelle mar enfurecido se tornaria bonançoso, a sua voz horrenda seria apenas um cantico, as aguas recuariam mansas até os confins do mundo, e elles veriam desenrollar-se diante dos seus pequeninos pés uma estrada singella e vulgar, que os conduziria ao seu casal. E o coração amargurado e inquieto de Tone, tumefeito de consoladora esperança, voou pelos espaços, em quanto cahia supplice sobre a rocha erguendo as mãos e aconselhando:

—Resa muito, ao Senhor, Zefa!

A pequenita ajoelhou como elle ajoelhara; pôz as mãosinhas, fitou nas estrellas os olhos cheios de lagrimas. Não sabia ainda resar, mas os seus labios delgadinhos imitavam n'um anceio as palavras fervorosas que seu irmão dizia alto: «Padre nosso, que estaes no ceu...»

O mar não se apiedava. Os seus bramidos eram violentos e colericos. De onda a onda as aguas subiam mais. A todos os momentos os corpos lhes eram salpicados de espuma e as pobres camisinhas de linho grosso já estavam encharcadas. Zefa, d'um primeiro lamento timido e perigoso, foi subindo a um pranto sentido. Chorava copiosamente em gritos, mas a vontade energica de Tone ainda procurava sustental-a contra esta fraqueza. Sem uma lagrima, sem uma ruga de pavor no rosto e com voz clara animou-a:

—Cala Zefa, não chores. O pae está ali—(apontou o vasto oceano)—e vem buscar a gente para irmos todos para a nossa mãe.

Acreditaria Tone, n'este providencial soccorro?! A furia do mar augmentava de instante a instante, as vagas ameaçavam-no de mais perto, elle continuava com a irmãsinha estreitada contra o seu corpo valoroso. Ambos esperavam, com os cabellos empastados e as camisas colladas á pelle, que da infinita bondade do céu viesse o soccorro que os restituisse aos braços de sua mãe. Do mysterio insondavel da noite é que viria a voz salvadora, ou fosse na vontade protentosa de Deus abrandando a inclemencia do mar, ou na força amorosa de seu pae cuja sombra tantas vezes conheceram a vaguear sobre os rochedos e sobre as aguas!...

E sua mãe? aquella boa alma consoladora que os aconchegava ao seio nas crises das doenças?! Zefa entregava-se á protecção de Tone; este, de animo varonil, alguma coisa via surgir ou do ceu omnipotente, ou do mar mysterioso, ou da terra sempre querida.

Da terra querida chegou-lhes realmente o primeiro som d'uma voz fortalecedora e meiga, quando estavam no maior desespero. «Tone!»...«Zefa!»...—dizia um grito sahido do medonho seio da noite. Havia n'esse grito mais desespero e mais lagrimas do que furia no bramido do mar, e gottas d'agua nos seus abysmos insondaveis. Era a voz da Mãe que procurava seus filhos na praia e que no meio d'angustias os pedia á immensa escuridão. Aquelle som carinhoso e desesperado chegou aos ouvidos dos apavorados innocentes, quando os seus pequeninos pés já se mergulhavam na agua, que recuando mais uma vez pareceria arrependida da propria crueldade.