Quereria este Gama faltar áquillo em que já concordara? Não podia ser... julgavam-n'o incapaz... era talvez feitio... No emtanto tornava-se urgente uma aclaração e para a obterem concertaram-se o Menezes, o Provedor e o Presidente, fazendo-se acompanhar do Mendonça, que era desembaraçado e não tinha papas na lingua. Vestiram se apparatosamente de sobrecasaca, chapéu alto, luva... tudo como o caso requeria. Entraram n'aquella sala humida e fria da casa de Serpins. As janellas davam sobre um laranjal, cujo verde escuro entenebrecia o ambiente. O tecto abahulava-se n'uma intenção de amplitude, concentrando a claridade. As cadeiras dormitavam aos lados, quasi em abandono!
Palraram sobre todas as cousas—lavoura, demandas, politica, melhoramentos... e n'um a proposito bem aproveitado, o presidente pôz timidamente a questão:
—V. s.ª bem sabe... Temos os nossos orçamentos a mandar para cima... Quereriamos alguma cousa de certo. As suas promessas...
—Promessas, promessas... Eu por mim ainda não tive tempo de pensar a sério nos objectos das nossas ponderações...
—Mas os nossos compromissos... a festa da Senhora do Regaço á porta...—insufflou o Menezes.
O provedor accrescentou:
—Os doentes necessitados não pódem esperar. V. s.ª comprehende...
—Comprehendo, porém são cousas difficeis. Immenso que fazer! Uma casa grande e muito embrulhada na administração. Caseiros, rendas, generos, gados, o diabo! Ainda não pude... realmente ainda não pude...
O Mendonça, que era azedo, esperto e embirrava com o morto, aproveitou o momento para desbravar o terreno e ao mesmo tempo lançar grossa mancha em todos os Gamarrões, pois fôra sempre seu parecer que este sobrinho equivalia á besta do tio. N'um tom que, á primeira vista, se poderia julgar inconveniente disse:
—Meu caro senhor, cartas na mesa. Estes cavalheiros tiveram de v. s.ª solemnes promettimentos. Fundados n'elles fizeram declarações lá fóra e com todo o direito vêem exigir que v. s.ª cumpra a sua palavra. Ora eis ahi está o que é, sem mais refolhos.