—A memoria de seu tio tudo merece—insinuou o presidente, para avelludar a dura arremetida do Mendonça.

O sobrinho do Gamarrão atirando solemnemente com o busto para diante, ergueu a cabeça, e de palpebras meio cerradas, affirmou:

—Se meu nobre tio, cuja memoria eu venero e acato no mais alto grau, costumasse fazer todas essas dadivas, que os senhores dizem, de tal teria deixado apontamento ou lembrança que ainda não encontrei. Porém que encontrasse ou que encontre, eu desde este momento solemne declaro que acho abominavel, (abominavel é o termo!) este procedimento de quererem influir no tribunal da minha consciencia! É cousa que se faça, o perturbar uma consciencia, seja ella de quem fôr, de um rei ou de um mendigo?! A um homem delicado e quasi timido, como eu, impôr-lhe um tal onus e n'esses termos! Não se poderá taxar de indelicadeza, de violencia e até de coacção!? Eu recuso e recuso terminantemente.

Foi terrivel o assombro!

Os quatro olharam-se sem comprehender! Depois das exequias, do sermão, da poesia, das correspondencias, sahir-se com esta! O Mendonça, azedo e ironico, atirando com a ponta do cigarro para o sophá, retorquiu em voz levantada:

—Lérias, cantigas!... O que você não quer é dar nada, eis ahi está. Por força havia de ser um avarento como o jumento de seu tio. Pela cara se lhe tiram as obras. É um Gamarrão segundo.

E retirando-se após os outros, que já se dirigiam para a porta, accrescentou:

—Um alarve d'estes só se ensinava com meia duzia de lambadas. É o que elle merecia. Grandissimo pulha!

O dr. Gama ficou estarrecido e apopletico. Que procedimento inaudito! Que formidavel canalha! Correu á varanda trasbordando de impetuosa raiva e vendo-os ainda no quinteiro gritou lhes:

—Comedores! Nem vintem! Ouviram seus comedores!?