O Mendonça voltou-se e n'um gesto de punhos cerrados aggrediu-o:
—N'essas ventas, n'essa cara de cabaça é que devia ser! Grandissima cavalgadura!
E todas as bellas esperanças e promessas foram poeira levada pelo vento d'esta discordia, derivada d'uma velhacaria dupla.
O CALVARIO DO AMOR
I
Seriam duas horas d'uma fria noite de março, quando a cavalgada sahia o largo portal do Corcovado, em direitura á egreja da freguezia, que ficava a uma boa hora de distancia.
A noiva, joven e formosa, com vestido de seda clara semeado de florinhas azues, montava soberba mula, ajaezada á hespanhola e coberta de valioso teliz de veludo encarnado com brilhos d'oiro, peça antiga na casa de D. Bento d'Osma, o ditoso noivo, que aos sessenta annos ia receber como esposa a encantadora Maria. Pelo caminho aspero e pedregoso, ladeado de pinheiraes sombrios, de penedias soberbas, de campos ferteis, de precipicios fundos onde grasnavam aguas tumultuosas, sentia-se a animação da extensa cavalgada. As lumieiras, que os creados sustentavam altas, erguendo os braços para aclararem maior area do caminho, produziam sombras phantasticas que se espalmavam nos muros e deitavam nos campos, dando a este quadro de vida commum, aspecto tão singular que ao longe pareceria festa de demonios em delirio. As aves silvestres e os animaes bravios que tal presenceassem, acordados do seu repouso, assim o deviam pensar, pois fugiam uns voando, outros correndo e sumindo-se todos no denso negrume da noite. Ia na frente a noiva, delgada e airosa, dentro do seu vestido claro, os cabellos negros e fartos ornados de flores naturaes, as mais bellas flores dos jardins d'Osma, onde as havia raras e viçosas todo o anno. Ao lado de Maria, D. Bento, ainda vigoroso, montava magnifico cavallo baio adrede comprado para este acto solemne. E logo a seguir o pae da airosa menina, o José Pereira do Corcovado, da conhecida casa do Corcovado e seus quatro filhos, Manuel, Thomaz, Vicente e José, rapazes valentes e destemidos, pimpões de varrer tudo em romarias e feiras, quando se junctassem os quatro. Cercava-os o maior numero das lumieiras, para acautelarem a noiva contra qualquer estorvo do caminho turtuoso e difficil, e assim assegurarem tambem aos que vinham atraz, transito livre. Estes eram pessoas de differentes edades e feitios; senhoras velhas de vestidos serios de seda preta e meninas novas todas de claro, desde a cor de rosa virginal até ao verde-prado que é esperança. Os homens antigos estadeavam as suas casacas de gollas altas e bofes nos peitilhos das camisas; os rapazes d'agora vestuario delambido e collarinhos pegados á pelle do pescoço. Havia alguns padres na extensa cavalgada, de sobrecasaca grave, bota eclesiastica de borla no joelho, ou bute simples nos mais pobres que não tinham para abastanças, volta no pescoço, e deitando a sua sentença latina do alto das suas eguas de farta cauda e largo ventre prolifero. Os da rectaguarda mofavam do velho D. Bento, pela desproporção na edade com Maria, e alludindo á violenta e conhecida paixão, que por ella tinha, o João da Cunha, da casa da Maceira, disse um conceituosamente:
—Póde muito bem ser um segundo tomo do velho D. Thomaz que se casou com a D. Paulina, morgada da Cerdosa[2].
—Que lhe preste—accrescentou Frei Ignacio pitadeando-se.