Era realmente coisa sabida que João da Cunha amava perdidamente Maria; e tão perdidamente a amava e tão de receiar era uma vingança dos rapazes da Maceira (que tambem eram quatro e não inferiores em valentia aos do Corcovado), que os irmãos da noiva iam adeante a guardal-a e promptos para tudo. Arrebatando-a ao amado preferido, levavam-na juncto do altar para a entregarem ao morgado d'Osma, senhor de Osma e de muitas propriedades de Minho e Douro. João só podia alardear boa linhagem e muito amor, quanto a haveres a casa era pequena e filhos muitos. Quando n'isto falaram ao velho do Corcovado desatou n'um berreiro de espantar lobos: «que amor sem riqueza era bonito, mas julgava-o destempero; que se lhe queria a filha viesse pedil-a trazendo titulos de propriedade para a merecer. Elle por sua parte, tinha boa casa; mas herdeiros cinco».
—Portanto, que tire d'ahi o sentido—rematou para o enviado.
O da Maceira que era ousado e temerario approximou-se um dia do velho e perguntou-lhe de cabeça alta:
—Como quer o senhor José Pereira que eu arranje assim de repente dinheiro?
—Isso é comtigo e não commigo.
—E com quanto se contenta?—disse sarcastico.
—Com muito; dinheiro quanto mais melhor—respondeu o velho no mesmo tom.
—E quanto tempo me dá para arranjar isso com que lhe possa comprar Maria?
—Ella não é negra. Não te me faças birbante que se os meus rapazes ouvem...
—Bem me importo com ameaças! Peço um anno, para ir ao Brazil entender-me com meu tio Antonio, que lá tenho. Acceita?