—Vae ao Brazil, vae onde quizeres, eu já falei.

E voltou-lhe as costas sem mais ceremonias.

O rapaz sahiu o portal do Corcovado com uma batalha no cerebro. A sua idéa n'aquelle instante, foi roubar violentamente Maria, fugir com ella para sitio alpestre e ignorado, e lá viverem vida selvatica d'amor, sustentando-se de leite e fructos da terra. Chamava-o, a grandes vozes, o coração, para essa existencia poetica, altiva e nomada, querida da imaginação de todos os independentes, como apropriada á vida feliz. Alimentarem-se de caça, do mel das abelhas, de medronhos e hervas; beberem o leite, a limpida agua das fontes por escudellas de madeiras ou de cortiça; vaguearem no silencio magestoso das mattas escuras, pouco conhecidas dos homens; suspirarem juncto das estrellas na amplidão das serras altas, absorverem a largos pulmões o ar fresco e aromatico das brizas que vem dos codeçaes floridos e das urzes sempre verdes... era o que lhes deleitaria a sensibilidade, irmanando-os com os pastores, com os anjos e com os poetas. Nos primeiros colloquios d'amor, que tivera com Maria, quando ainda eram creanças e simples, já detalhavam a vida dos ermos, baseando-a no aspecto ditoso e feliz dos pegureiros, que na primavera subiam ás montanhas com os seus rebanhos, e no que sabiam de contos de fadas e moiras encantadas. Era essa existencia que lhes convinha: uma cabana e dormir entre a lã das ovelhas, imaginar ao som gemente dos regatos e deleitar os olhos no azul infinito que não tem fim—um viver só pelo goso de existir e nada mais.

Então ninguem sabia ainda que elles se amavam, a flor doente de sensibilidade que lhes estava rebentando no coração era apenas presentida pelas ingenuas creanças. A modo que iam crescendo tomava esse sentimento vago uma fórma mais definida e concreta, os olhos do corpo, ensinados pela experiencia, iam corrigindo as incertas aspirações da alma contemplativa e um dia disse João a Maria: «Quando nos casaremos nós?»; ficando absortos n'um spasmo de mente a voarem pelos espaços sidereos.

Casar! palavra magica e dolente em que tudo se comprehende e pouco se diz. Seria só a união dos corpos? Seria a harmonia dos corações? Seria a orchestração das palavras melodicas que sentiam nos ouvidos, quando de noite pensavam um no outro? Que seria?!... O contacto das suas pelles, quando se abraçavam e beijavam nos brinquedos infantis, dispertava-lhes, por vezes, fulgurações no cerebro, chispas nos nervos, deleites celestiaes. Casar seria a absorpção de dois entes n'um ente novo e mais complexo; mas o casar ideal, a completação ambiccionada era fugir, não ver homens, nem casas, nem mares turbulentos, e só conhecer serras tranquillas, arvoredos mysteriosos, e animaes amigos. Poderiam realisar estas sublimes aspirações?...

Foram crescendo os corpos; adelgaçava-se a nuvem em que divinamente viviam occultos; era mais palpavel a realidade, João e Maria para casarem precisavam merecer-se. Por isso elle foi principiar os estudos, com idéa de seguir uma carreira, que lhe desse no mundo uma situação. Maria ficou na aldeia, entre as mesmas arvores, contemplando os mesmos penhascos e o mesmo céu, e, quando não teve comsigo João, cruciante foi a sua dôr. Porém logo nas primeiras férias todas as saudades se diluiram e a alegria d'esse primeiro encontro e dos seguintes compensara-os da magua da primeira separação.

O velho da casa do Corcovado, mais experiente e sagaz do que os filhos, foi quem primeiro deu pelo caso. Não lhe convinha: determinou acabar aquillo d'uma vez. Formou uma assembléa com os seus rapazes: fechando-se n'um quarto com elles, expoz o caso e pediu-lhes alvitre no modo de proceder.

—Isso dá-se cabo d'elle, é o melhor—disse Thomaz, o de genio mais violento.

E o Vicente secundou-o:

—Sahe-se-lhe ao caminho longe d'aqui, quando vier a férias; arruma-se-lhe um estalo na cabeça e enterra-se bem fundo n'um campo, onde ninguem o encontrará.