—Não é preciso tanto—disse o velho concentrado e tenaz. O D. Bento d'Osma gosta da pequena; porque já m'o disse. Maria fez desoito; arranjam-se os papeis em segredo, chama-se aqui sem ella o esperar, fala-se-lhe tezo, e casam-se sem dar tempo a que o marmanjo consulte os irmãos.
—Que nós não tememos—disse o Manuel, o mais velho, applaudido pelos mais novos.
Maria por um acaso feliz estava no quarto contiguo e como falassem alto ouviu a conversa. Foi grande a sua perturbação, mas simulou o contrario para a defesa. Descobriu meio de tudo communicar ao mais velho da Maceira, o Gonsalo, para o tornar conhecido do irmão, asseverando-lhe que, por sua parte, estava prompta para quanto João entendesse necessario fazer-se com o fim de defenderem o seu amor. Foi n'essa occasião, que o namorado desejando levar as coisas a bem anunciou ao velho José Pereira, primeiro por um enviado, depois directamente, os projectos em que estava de conquistar no mundo posição que lhe desse direito á mão de Maria, terminando pela affirmativa de ir ao Brazil. Tal viagem, porém, nunca pensou em realisal-a e a promessa era apenas um estratagema de ganhar tempo, para concertar um plano de fugir com a sua amada.
[2] Amores, amores...
II
Simulou-se na Maceira o caso da partida de João para a companhia do tio que tinha no Brazil, tudo com o apparato do estylo: enxoval, despedidas, choros, a sahida do rapaz acompanhado de seus irmãos, e até um telegramma do Porto, que participava o embarque. Fez-se a representação com a maior verosimilhança. O namorado desappareceu da aldeia e falava-se d'elle com saudade e sympathia. Os do Corcovado, acreditando só metade do que viam, principiaram logo a dispor as coisas para o enlace de Maria com D. Bento.
O Manoel, que era o de mais tino, sahiu uma noite a cavallo levando comsigo dois creados só até ao limite da aldeia: ia tractar com o morgado d'Osma de coisas de escriptura e dote; informal-o do que havia e do que seu pae com todos elles tinha accordado. Assentes as bases do contracto com o noivo, que não offereceu difficuldades, pois toda a sua ambição era obter a mocidade de Maria para caldear com a sua velhice, logo se despacharam os dois mais novos, Vicente e José, para irem a Braga tractar secretamente dos papeis do casamento. No entretanto, dentro do Corcovado não se dormia descançado: havia armas promptas, e esculcas de noite no velho casarão. Conheciam bem os da Maceira: sabiam-nos ousados, valentes e até loucos d'audacia. Ainda que João houvesse partido (do que não tinham absoluta certeza), ficavam os outros que eram capazes de armarem uma batalha campal, para garantirem ao irmão ausente, uma desaffronta e uma vingança estrondosa. Dispunham os seus meios de resistencia para se defenderem, ainda que preferiam que tudo se passasse com normalidade e socego. Esconderam, pois, entre si e D. Bento o plano urdido, simularam vida tranquilla e ordinaria, simularam mesmo a crença no descuido dos da Maceira, na partida de João, e já em Braga corria velozmente o processo ecclesiastico com todas as licenças necessarias para em vinte e quatro horas, logo que taes licenças chegassem, se realisarem as nupcias.
Em Braga era tambem onde estava João da Cunha, á espera de aviso dos irmãos, para regressar á aldeia na opportunidade conveniente, e aqui foi avisado por um amigo, de que os papeis andavam em segredo, nas mãos do senhor Arcebispo. Logo comprehendeu tudo e na manhã seguinte, depois de andar duas noites a cavallo, chegou á Maceira, onde entrou tanto a occultas, que só os irmãos e o pae d'isto tiveram conhecimento, pois elle tomara a precaução de despedir o arreeiro com a cavalgadura fora do logar, que atravessou a pé, não seguindo veredas nem caminhos, mas atravessando campos e saltando muros. O que logo ficou assente entre todos foi que Maria não casaria com D. Bento d'Osma, ainda que fosse necessario matarem e morrerem.
A pobre menina, vigiada e guardada, como se sentia, não pôde, durante esses dias crueis, mandar nenhum enviado ao Corcovado. Vivia em grande amargura e afflicção por suspeitar coisas tenebrosas do que em volta d'ella se tramava. O seu amor e a exaltação do seu espirito eram tamanhos, que pensou em suicidar-se, antes que ceder a quaesquer conselhos ou pressão de pae e irmãos, para preferir outro homem a João. Porém era alma juvenil e crente, não podia comprehender que a Providencia divina, e Maria Santissima, de quem sempre fôra tão devota, podessem concordar em tal iniquidade. Ora não querendo Deus e não o consentindo a Virgem, nada podiam os homens—pensava ella.
Os papeis chegaram de Braga ao mesmo tempo que vestidos e enfeites para o dia solemne das bodas, que podiam realisar-se d'um para o outro momento. D'isto foi avisado D. Bento d'Osma, por uma carta, emquanto Maria era chamada á presença de seu pae e irmãos, que sisudos e graves como juizes a sentencear, lhe disseram a resolução em que tinham assente. O pae rematou o longo arrazoado dizendo: