—De modo que tu vaes ser senhora d'uma das maiores casas da provincia e mulher d'um dos maiores fidalgos conhecidos.

—Mas se eu não gosto d'elle, que é um velho e antes quero João da Cunha, apezar de pobre!...

—Tolices dos desoito annos—commentou sarcasticamente o velho. Com esse não te dava eu consentimento, nem com um bacamarte cheio de zagalotes assente no meu peito.

—Pois com outro não caso—disse resoluta e sem lagrimas.

—Isso veremos—disse Manoel, o mais velho dos irmãos. Ainda que tenhamos de te levar para a egreja atada de pés e mãos, has de ir.

—Não será preciso...—acrescentou o Thomaz, pronunciando as palavras com ironia feroz. Irá muito bem a cavallo e nós veremos.

—Carrascos!—pronunciou Maria, cahindo redondamente no chão, rigida como um cadaver.


A este tempo os da Maceira já estavam conhecedores do resolvido matrimonio de Maria com D. Bento d'Osma. Essa informação trouxera-a de Braga o proprio namorado. Mostravam-se, porém, naturaes no trato e despreoccupados do que se passava; mas entre si assentaram o raptar Maria antes do casamento, no proprio acto nupcial, ou até dos braços de D. Bento, se não pudesse ser d'outro modo. Quem os conhecesse bem, sabia que tentariam o supremo golpe, atravez de difficuldades, que outros pudessem julgar invenciveis. Entregar Maria intacta ao irmão era o supremo desejo de Gonçalo, Antonio e Thomé. Porém, vencer, á valentona, todos os obstaculos que os do Corcovado teriam accumulado em volta da desejada rapariga, para que não fosse tocada por mãos impuras, é que não poderiam... Necessario era, pois, servirem se do engenho, primeiro que da força; e tiveram artes de fazer chegar ás mãos da fraca creatura, as palavras animadoras d'uma carta que João lhe escreveu, em que explicava o proposito em que estava. Esse papel foi levado á casa do Corcovado por um pedinte de classica barba longa, curvado e de voz lamentosa quando pedia. Abeirou-se da porta da cosinha, e como fosse desconhecido e significasse vir de longe (talvez de romagem a S. Thiago de Compostella, pois trazia conchas cosidas nos andrajos) as creadas interessaram-se por elle e attenderam-n'o. Vinha esfomeado e friorento; pedia o caldo da esmola e o agasalho do palheiro; como soubesse contar historias e ler a signa, entreteve os creados e ficou por ali coisa de tres dias. Os proprios irmãos de Maria gostaram do pobre e escutaram-lhe os casos; o velho José Pereira, ouvindo-lhe dizer que fôra soldado no tempo dos francezes, que acompanhara o general inglez pela Hespanha dentro, conversou com elle e mandou dar-lhe uma tigella de vinho. Maria, a quem o misero, lendo nas linhas da mão aberta predestinou alegre e risonho futuro, sorriu-lhe no meio das suas amarguras. Foi n'este acto que o pedinte lhe introduziu na manga do vestido a carta de João da Cunha, o que tanto alvoroçou a pobre menina, que só por um milagre de energia não cahiu com um desmaio. Assim ficou ella instruida do plano concertado pelo seu namorado.

III