—Alguma batida ao bicho bravo. O fogo é lá p'ra baixo—explicou João.
—Vamos depressa para casa!...—pediu receiosa.
—Pois vamos—concordou abraçando-a pela cintura, para andarem mais depressa.
Caminhavam diligentes e celeres, não reparando que se lhes vertia o leite da infusa. Dominava-os apenas a idéa de não serem vistos de viv'alma, de se esconderem na modesta choupana, com portas e janellas fechadas, n'uma escuridade completa. Porém, os seus passos deseguaes e nervosos foram sustidos n'um momento, pela apparição d'uma sombra... d'um phantasma... d'um homem a cavallo, que apparecendo ao norte se dirigia como elles, para o lado da ermida branca.
—Olha gente!—exclamou Maria. Se nos vê, santo Deus!...
Esconderam-se por traz d'um macisso do urzal virgem, que pegava com o Medronhal. D'ali queriam observar o destino do cavalleiro. O silencio de João, as linhas do seu rosto contrahido e pallido, o peito tão quieto que nem respirava, denunciavam a negrura do seu coração. Comprehendeu o perigo: ainda que aquelle homem fosse um estranho, que os não conhecesse, havia de causar-lhe surpresa o encontral-os n'aquellas rudes paragens, sósinhos, tão jovens, tão namorados e tão dignos um do outro. Levaria a noticia do singular encontro e estariam logo descobertos. Pelo menos seriam obrigados a mudar d'abrigo e a esgotar depressa o primeiro calix da sua ventura.
—Talvez passe para deante—ciciou-lhe, quasi ao ouvido, o namorado de Maria.
Mas o cavalleiro, caminhando devagar e cautelloso, como avançada na observação de campo inimigo, estava ainda bastante longe para só se distinguir o seu vulto com o chapeu desabado, a espingarda atravessada nos joelhos, o grosso tronco, firme sobre a sella.
—Peor é—considerou João—se ha por aqui alguma porta de espera; porque então fica.
—O que é uma porta de espera?—perguntou anciosa Maria.