—O ponto onde pode romper a caça—esclareceu.
Do lado esquerdo surgiu outro cavalleiro com o egual aspecto de descanço, da mesma forma vestido e armado, convergindo tambem para o sitio da ermida. Viam-no mais perto, sem que pudessem ainda definir particularidades. Porém, quando chegou a um altinho, onde o recorte do seu corpo e da cavalgadura se fez com maior precisão e nitidez, Maria deu um grito, que pela intensidade da dôr que exprimia, seria capaz de acordar lastimas nos reconcavos d'aquellas montanhas.
—É meu irmão Thomaz!
A João da Cunha cahiu-lhe da mão o tarro de leite, que se verteu pela terra. Affirmando-se com acuidade de vista, levou a mão ao punhal que tinha no bolso rugindo:
—Pois matto-o.
Em casa é que tinha as armas, com que poderia fazer frente aos seus inimigos; mas a casa estava distante, e tinham de subir um pedaço de encosta aspera. Chegariam a tempo se corressem; porém, as pernas de Maria, recusavam-se a andar. Era mortal a pallidez do seu bello rosto, tremula de commoção a sua voz melodica, pavorosa a angustia da sua alma; o seu corpo sem energia, deixava-se desfallecer sobre o chão. João da Cunha, o valente rapaz, principiou a tremer como um vidoeiro, açoitado por ventos furiosos. Maria agarrando-se fortemente ao seu corpo supplicava-lhe:
—Esconde-me, esconde-me. Que me não vejam!
Subia, magestoso e grave do fundo da matta, o sussurro do ribeiro da Marnoca, cujas grandes aguas se despenhavam, avolumando-se-lhes o som, com as ressonancias da montanha. Essa voz rouca e solemne attrahia os dois corações amantes, que só poderiam encontrar refugio nas covas fundas, onde a corrente uivava e onde o javali se escondia. N'essa tetrica escuridade de noite haveria por ventura, abrigo e defesa contra a furia e colera dos irmãos de Maria?
—Vamos, vamos para baixo e se lá ainda nos encontrarem, jura-me que me has de mattar com esse punhal, antes que elles me toquem!—clamava a amada, enleando-se ao tronco do seu amado.