—«Não sabes como te amo ainda além da campa! o gelo do sepulchro não pôde apagar o fogo em que os teus olhos me abrazaram. Esqueci o teu desprezo para perdoar-te. Para que havia ter mais esse flagicio na eternidade? Que destino, que felicidade a nossa, que regosijo no céo, se não houvesses ludibriado este amor! Nossas almas absorver-se-hiam na essencia de um anjo, enlevadas n'um sonho de harmonia, até despertarmos no empyreo. Assim precipitaste-me na mansão das penas e soffrimentos, onde o meu espirito se apura. O amor terreno tenho-o expiado no fogo. Vês este cendal de alvura transparente? estava quasi a tornar-se brilhante de gloria! Pedi a Deus este momento tão breve para poder agora ver-te; o goso fugitivo de contemplar-te, a esperança de te achar triste, scismando em mim com pezar e saudade, a troco de mais cem annos de novos soffrimentos! Cem annos mais, depois de te encontrar nos braços de outras descuidado, rindo desvairado n'uma orgia dissoluta. Oh, mas eu não sei senão perdoar-lhe.»—E desappareceu-me, continuou elle, como um meteoro fugaz, quando passa nos céos, e deixa após si um rasto luminoso. Acordei.
«Em casa ouviam-se gritos, alaridos, como de um successo repentino e funesto. Fui a vêr. Disseram-me{25} que Branca desapparecêra. Cheguei a convencer-me da realidade do sonho, que um anjo a levára comsigo. Perguntei debalde. Passou-me pela mente um presentimento horrivel. Branca costumava ir sentar-se sobre uma rocha que se debruça sobre o mar, e em cujas furnas as vagas restrugem com um stridor surdo, como o anceio do ultimo esforço n'uma lucta desegual. Protegida pelo nevoeiro da madrugada, mais veloz que a ondina da mythologia slava, a pobre fôra saciar os pulmões ralados da febre lenta que a devorava. Houve quem a visse dependurada na aresta dos fraguedos, o véo branco que levava fluctuar ao vento, como n'um adeus de despedida. Ella sentira n'esse instante a attracção do abysmo, lembrou-se d'aquella tarde de agosto, em que eu a salvara, trazendo-a com um abraço á vida; quiz morrer com a recordação mais doce que levava do mundo. Precipitou-se. E o mar murmurava sereno e manso, como a embalar-lhe o seu ultimo somno.
«Comecei então a sentir uma paixão por ella, depois de morta; se a terra a tivesse escondido, eu a iria arrancar ao repouso sagrado da sepultura, beijal-a, animal-a com o fogo do meu delirio, despedaçal-a n'estes braços convulsos, e cair tambem inanime. Queria sentir bem junto do peito o contacto gélido de um corpo que eu tantas vezes apertei, das faces que eu devorava, quando ella se dava aos caprichos da minha vertigem. Havia n'este amor um pensamento de halucinado,{26} um tanto de selvagem, de monstruoso; impellia-me uma inquietação continua, sentia em mim um como ranger de puas do remorso, a voz que interroga Caim. Fugia, não queria consolações. Eu ia sentar-me tambem na rocha escarpada, a vêr o mar, procurando a serenidade que me inspirava a contemplação do sepulchro da minha amada. Vinha visital-o, á busca d'esse allivio de que fala o poeta do Oriente.
«Eram decorridos já tres dias, não se vira mais o corpo de Branca; o mar queria-o para si, mas eu tinha uma vontade fervente, absoluta, o desespero de tornal-a a vêr linda, roxa, núa, desfigurada. Era o mais que podia soffrer. Ia a maré na vasante, no fim da tarde, as ondas gemiam brandamente no areal deserto, as virações da noite sopravam frias, humidas das bandas do poente. Quando desci da rocha escarpada, encontrei inesperadamente o corpo de Branca estendido na area. Era uma criança descuidada, adormecida; a onda que a tinha despido para namorar-lhe a alvura do corpo, viera deposital-a na praia. Ia a precipitar-me para ella, unil-a a mim no frenesim d'essa loucura. Tive medo! recuei sem encaral-a. Temi profanal-a com a vista; estava quasi núa, de costas, com os olhos no céo, como pedindo á noite que viesse recatal-a no seu manto de trévas. Quando tornei junto d'ella com o lençol para a envolver, senti uma ancia de passamento, a lucidez de quem entrevê a eternidade: conheci que o cadaver de Branca se voltara{27} de bruços, furtando á vista profanadora o verticello pudibundo da flor que eu fizera pender sobre o caule e cahir emmurchecida. O inexplicavel deixou-me um terror que ainda me dura...»
Não tive animo para lhe pedir que continuasse.{28}
{29}
A estrella d'alva
(CONTO MARITIMO DO SECULO XVI)
N'isto andava tudo, que se não poderiam pôr os olhos em parte onde se não vissem rostos cobertos de tristes lagrimas, e de uma amarelidão, e trespassamento de manifesta dôr, e sobejo receio que a chegada da morte causava, ouvindo-se tambem de quando em algumas palavras lastimosas, signal certo da lembrança, que ainda n'aquelle derradeiro ponto não faltava dos orphãos e pequenos filhos, das amadas e pobres mulheres, dos velhos e saudosos paes que cá deixavam, etc.
Hist. tragico-maritima, t. I, p. 55.
O sol esmaltava as côres limpidas do horisonte com uns cambiantes de purpura e de azul, cujo cariz incompleto e vago reflecte a melancolia suave em que a alma se concentra n'essa hora fugitiva da tarde. O horisonte fechava-se lentamente, como o véo de um templo que se cerra. As virações travéssas da noite volitavam encrespando a face trémula das aguas, que lhes respondiam ás caricias inquietas, confidenciando com um murmurio sonoroso e confuso. O galeão soberbo da India singrava{30} ufano, buscando em prôa a terra querida da patria; levado nas azas das monções propicias, a vela branca desfraldada aos ventos, tinha o garbo da garça altaneira que se libra vaidosa por sobre as ondas, que ella vae roçando de leve. A flamula ondulante, hasteada no tope do mastro de mezena, serpeava nos áres como em adeus silencioso ás ribas odoriferas do Oriente, a despedida ao paiz dos sonhos e das maravilhas. A natureza como que se absorvera nos encantos d'esta hora; havia um segredo intimo em cada toada perdida d'este concerto do declinar do dia.