«Uma vez tinha eu voltado pela ante-manhã de uma festa louca. Dormia a somno solto, prostrado pela fadiga, esgotado da orgia desenfreada. Senti uma mão fria passar-me de leve nas faces, acordei.

«Era ella! Appareceu desmaiada, como a vi uma vez ao luar silencioso, com uma côr que lhe realçava a candidez, e disse-me:

—«Vim vêr-te na despedida do tumulo. Desde que adoeci nunca mais me appareceste. O esquecimento é frio e pesado como a lagem sepulchral. Eu não queria dizer-te isto, não quero magoar-te; perdôa. Olha, hoje acordei de um sonho tão lindo! deu-me forças para levantar-me do leito e vestir-me de branco para vir contal-o a ti só. Como não choraria minha mãe que me vela se o soubesse! Não sei se velava, se dormia; minha alma parecia voar, suspensa n'uma como cadencia, vaga, quasi imperceptivel, confundia-se com ella até perder-se no céo. Acordei de subito; restava-me só a illusão. Olhei em roda; a alampadasinha tornava a solidão pungente, augusta; pavoroso o silencio do meu quarto. Comecei{22} a lembrar-me de ti, dos passados tempos; estava já na terra. Foi quando descobri a meu lado uma apparencia angelical, a falar-me de mansinho uma linguagem que eu mal entendia: que o Senhor o enviara para chamar-me. Eu não pude voar, voar com elle, e sinto agora que a alma me foge; venho dizer-te adeus.

—E o que lhe respondeste?

—Elle continuou:

«Disse-lhe que os sonhos mentiam sempre, que elles a matavam.—«Não são os sonhos que me matam, gemeu a desgraçada, é a realidade, a realidade. Bem o sabes, e esse que tudo vê. As recordações são para mim como um remorso. Que noites, que vigilias inteiras a pensar em ti! cada palavra tua, que eu decorava, era um poema de amor e esperança; ao repetil-as na mente diziam-me quanto a alma anceava, e mais ainda, mas enganaram-me sempre. Lembras-te d'aquella noite? Oh! meu Deus, meu Deus. Não sabes quanto me fizeste soffrer! Não conheceste a profundidade do golpe quando o descarregaste! Disseste-me essas palavras só para perder-me. É impossivel que isto te não dôa? Quando me appareceste n'aquella noite era o luar tão sereno, tudo confidenciava comnosco. Estava adormecida quando chegaste. Depois de me estreitares nos braços e beijares as faces geladas pelo rociar da noite, porque sorriste de um modo incomprehensivel? Descobriste-me que não casavas commigo, que outro havia polluido a minha candura!{23} Era uma blasphemia brutal. Deixei-me cair em teus braços, sacrificando-te a virgindade para que a reconhecesses. Desde essa noite não me tornaste mais a amar. Illudi-te? Porque assim me fugiste? Uma lagrima só rehabilitava-te diante de Deus. É tarde, muito tarde. Vim só para despedir-me e perdoar-te. Adeus.»

—E tu que lhe respondeste?

«Voltei-me sobre o outro lado, e continuei a dormir.

—Prosegue.

«Foi um pezadello atroz aquelle somno. Julgava-me em uma orgia immensa, na hora ominosa do sabbat nocturno. Um bando de mulheres volteava reunido em uma corêa desenvolta, n'um tripudio infernal, ao redor de um carvalho lascado pelos raios que se cruzavam a espaços na solidão e escuridade absoluta da noite. Dançavam como possuidas do mesmo furor que inspirava a corneta de Oberon. Quando eu ia mais arrebatado pelos requebros voluptuosos, enlaçado a um par ligeiro e flexivel, senti um leve suspiro a meu lado, que se perdeu nos áres. Era como o segredo de uma magoa que eu bem conhecia. Parei. Adormecera a ler uma ballada dos peregrinos do Rheno contada por Bulwer. Junto a mim descobri uma figura de mulher linda, etherea; o semblante tinha a serenidade de uma grande agonia que cauterisa, uma tristeza mais vaga do que a impressão de saudade que a lua desperta quando se reflecte n'uma lagoa quiéta. Era como um seraphim{24} quando chora. Não pude olhal-a; a candura do seu antigo amor exprobrava-me o cynismo. A viração que ciciava não repetiria tão brandamente o que ella disse: