II
La blanca palomica
Depois dos inesperados transes e provações, a que ás vezes a alma resiste para novos desastres,{61} Lope de Vega fugiu ás tempestades da vida, envolvendo-se no burel de uma ordem penitente, unindo a contricção e a poesia no mysticismo radiante das effusões lyricas com que desabafava nas horas comtemplativas. Quando o espirito solitario descia á terra e se deixava tocar pela dor, tinha então o encanto da sua prole, dos filhos que estremecia. Como se não lembrava elle, com pesar e saudade indelevel, do seu pequenino Carlos, côr de lirio e de rosa, quando vinha acariciar-lhe a alma com umas palavras de ternura infantil, quando o via pular de contente ao vir o dia, como uma antilope nos prados, quando os seus vagidos eram um gorgeio entrecortado que lhe pareciam um vaticinio encantador! Pobre criança, ainda coberto do orvalho matinal, de te expandires á bafagem perfumada da nova aurora, quando, lirio fanado pela geada, desappareceste na terra para seres transplantado no céo.
O poeta buscava consolação na poesia; era ella que o cercava de uma aureola de felicidade. Distraia-se cuidando do seu pequeno horto. Era a imaginação que o revestia, aquelle exiguo canteiro, ornado apenas de duas arvores, dez florinhas, uma laranjeira e uma roseira, onde casualmente cantavam os rouxinoes, e onde dois cantaros de agua formavam a fonte, que gemia e adormecia seus pesares. Contenta-se de pouco a natureza; elle não trocava este canto da terra nem pelo monte Hybla, nem pelo valle fertilissimo de Tempe, nem pelos jardins suspensos de Semiramis,{62} como elle proprio confessa; porque a phantasia creadora reveste-o de todas as graças de um paraiso sonhado, mostra-lhe columnas brancas de marmore com inscripções gloriosas, fontes que jorram e se despenham em borbotões de perolas e aljofres, lagos profundos e limpidos sulcados por canôas que desfraldam as vélas como cysne voluptuoso que deslisa, rodeados de sombras amenas e encantadoras de arvores soberbas similhando os gigantes da terra, a vinha entrançada aos platanos, dourada pelo sol de agosto, bustos entre a ramagem espessa, satyros que se adormecem ao som da lympha fugitiva, nymphas travessas errando na relva macia, que tapeta o recinto... É um sonho de poeta na sua soledade. Que tem que seja uma ficção esta magnifica paizagem? Elle sente as emoções que lhe traz o retiro que fórma, e para onde se refugia.
Seu filho levado pelos brios cavalheirescos, pelo impulso dos quatorze annos, deixou-o para seguir a expedição contra os hollandezes e os turcos. Uma catastrophe desastrosa veiu roubar-lhe mais esta esperança; a náo em que partira havia soçobrado.
Restava-lhe só junto de si Marcella, para amenisar as horas lentas e enfastiadas da velhice. O pae offerecia-lhe seus livros, dedicava-lh'os, pedindo que os corrigisse; ella reunia ás graças do corpo, a harmonia da plastica com um sentimento delicado, uma penetração viva e lucida. O poeta recebêra todas as consolações do{63} céo n'aquella filha; era a sua creação mais perfeita, a admiração dos poetas do seu tempo, era todo o seu orgulho.
Marcella começou a apparecer triste; tinha na face a pallidez da planta que esmorece. Nem uma palavra só de queixume; a mesma abstracção sempre! Os labios pareciam emmudecidos pelo sello do mysterio. Cercava-lhe os olhos languidos um disco roxo de maceração, ennublava-lhe o semblante a preoccupação de uma dôr, que não sabia confessar. Quando Lope a chamou para de junto a si, e a estreitou nos braços beijando aquella flor da mocidade que o Senhor fizera brotar de suas ruinas, sentiu uma dilaceração interior, ao ver uma lagrima pura, candida, ingenua, resvalar-lhe na face em que a dôr empanava o viço infantil:
—Oh minha filha! quem podera adivinhar o segredo de tua angustia, e inverter os pensamentos afflictivos de magoa n'um extasis perenne de felicidade. Marcella, Marcella! Eu dizia-te um dia, lembras-te ainda? era n'aquelle livro, que o presentimento me fez intitular Remedio na desdita: «Deus te proteja, e te faça ditosa, postoque teus dotes o não consintam, principalmente se fôres herdeira do meu destino.» A coróa de gloria que me cinge sangra-me na fronte com dolorosos espinhos; o que a poesia me ha ditado tenho-o soffrido primeiro. Tu, alma da minha alma, vás pisando a mesma via dolorosa. Ergue-te d'essa prostração do desalento em que te deixas cair! Conta-me o que assim{64} vem perturbar teus pensamentos tranquillos, roubar-me as tuas caricias que me fazem rejuvenescer? Eu não sei como amparal-a, interrogal-a, sem que esta planta mimosa languesça como a sensitiva. Menina, moça, ignorando a vida, acordaria ella senhora? Leval-a-hia o amor em sonhos ao seu mundo de aspirações infindas? Ella inclina-se sobre meu hombro e chora. Como posso eu consolal-a, dar-lhe as esperanças que não tenho e que de ha muito me desampararam? Marcella! Ergue a tua cabeça; deixa-me vêr-te, beijar-te, enxugar as tuas lagrimas, filha. Dize-me o que te afflige tanto. Pobre creança, ella cada vez me estreita mais a si.
—Oh meu pae! eu não sei o que me faz tão cedo aborrecer as galas, as seducções do mundo, e me mostra a vida como um dezerto invio, intransitavel. A alma sente um vacuo que ninguem pode encher. É o christianismo que me faz germinar no espirito este sentimento vago, uma sêde d'esse goso sem limites da visão beatifica, uma aspiração, um desejo ardente de regressar á eterna patria, de me confundir nos córos archangelicos, ao som do trissagio perenne. A natureza por mais esplendida e vicejante, as flores de aromas mais exquisitos, o céo mais admiravelmente cravejado de estrellas, o azul, o espaço aberto, causam-me o desgosto que havia sentir Moysés do alto da montanha vendo ao longe a terra promettida e sem poder attingil-a. Quanto mais me sinto enleada n'este encanto divino da{65} contemplação interior, torna-se-me mais intenso o desejo de abandonar o desterro d'este valle de lagrimas, quebrar os vinculos da carne, e acordar no empyreo. Este corpo que me déste é a prisão em que a alma suspira e anceia por soltar-se; ella é a escrava da Escriptura que vaga á mingua de uma gôta de agoa no dezerto: ella tem diante de si um abysmo, que precisa transpôr sem o fitar. Eu senti em sonho este hymeneu recondito e incomprehensivel do amor divino. O Amado erra pelas brenhas, chamando a Esposa perdida. Eu não me posso elevar até Deus, o Deus absconditus, pela intelligencia, como os doutores; deixae que a alma vulgar e humilde, desconhecendo essa vereda intrincada, caminhe conduzida pela intensidade do seu desejo á eterna fonte suprema do bem. Eu quero professar em um mosteiro, seguir a regra da penitencia austera, voltar para a arca santa, como a pomba do diluvio. Quero envolver-me no burel, mergulhar-me na escuridão de uma cella, e scismar embalada nas musicas do extasis.
—Marcella! para que vaes tornar assim a minha solidão mais dolorosa? Teu irmão, perdi-o ainda tão criança! Eras só tu que me restavas no mundo. Sem ti, de que serve a vida que levo devorada pelas recordações do passado. Eu perdi uma esposa, que asserenava em meu coração as tempestades do amor. Tinha em ti meu unico refrigerio, e desamparas-me quando me vejo mais só! Pobre filha! Terá ella vergonha do mundo?{66} do seu nascimento illegitimo? Que provação tão dura e repentina me estava reservada em castigo de uma mocidade turbulenta! Vae, filha, corre aos braços do divino Esposo: elle só póde dar-te a grinalda immarcessivel, servir-te com uma legião de anjos. És o ultimo ramo virente que o destino arranca de um tronco carcomido pelos annos. Vae, vae.—E apertou-a nos braços a chorar como uma criança.