Tempo depois, a engraçada filha do maior e mais fecundo poeta de Hespanha entrou para o convento das Carmelitas descalças, em Madrid. Lope de Vega descreve esse abandono do mundo com expressões sentidissimas:
«Marcella, o primeiro pensamento do meu amor paternal, cuidava em casar-se, e uma noite me disse o nome d'aquelle que desejava para esposo.
«E eu, que sabia quanto é prudente deixar amadurecer um tal pensamento, porque ha decisões que provêm de causas accidentaes, fiz minhas excusas, esperando sempre não contrariar seus desejos, se elles se fundassem na verdade de sua alma. Mas vendo cada dia esse desejo a augmentar-se, determinei-me dar-lhe esse esposo, que sollicitava seu amor. Esse esposo é bello, é rico, é sabio, e de uma estirpe illustre, e seu pae é nada menos do que todo poderoso. Eu juro que por parte de sua mãe é de sangue real, e que ella é tão boa, que não ha attractivos, nem virtudes que não possua. É uma mãe tão cheia de graça, que pelas suas mãos Deus a dispensa{67} ao mundo. Ella é juntamente rosa e lirio, cypreste e palmeira.»
A egreja estava ornada como o thalamo de um noivado. Então, o poeta viu sua filha n'esse dia com uma graça, uma belleza, uma perfeição inexcedivel, que a alegria fazia realçar sobre os dons da natureza, que o contentamento animava de vivacidade e elegancia. O esposo recebia-a nos seus braços carinhosos. O amor divino transfigura-se sempre na infancia. Myriades de luzes, damascos e brocados enfeitavam o aposento nupcial.
«Marcella,—continua o poeta—as faces coloridas como duas rosas, e os labios como banhados por um sorriso honesto, fitou-me: o ultimo adeus que separava duas existencias.
«Sua alma trasbordava de felicidade com esta vocação; e por um ultimo adeus de seu corpo, ella voltou costas a tudo que o mundo chama festas e prazeres.
«Depois, offerecendo ao joven esposo sua casta grinalda de virgem, ella estreitou-o a si, cobrindo de beijos seus olhos de esmeralda.
«O céo fechou a porta ao meu coração cheio de amor paternal; arrebatava-me a melhor parte da minha alma; e eu era o unico a lamentar n'esta multidão de espectadores. Tornámos á egreja; a desposada deixara seus habitos de festa, os enfeites, para envolver-se no burel grosseiro. Suas tranças foram cortadas, porque, como as outras virgens que povoavam o côro, ella não devia ter para ser bella, mais do que a sua belleza.»{68}
Sente-se n'estas palavras do poeta a dôr do coração de um pae, a quem todo o sentimento e uncção religiosa não podem consolar. Verga diante d'essa agonia, resigna-se. Passado o anno do noviciado ainda o coração virginal de Marcella palpitava com o amor divino. Pronunciou os votos, e professou.
«Ella dormia sobre a palha fria e dura, e andava descalça; o corpo andava occulto em uma vestimenta humilde; só os olhos eram a expressão de sua alma. Oh bemaventurado desengano das cousas da terra!—exclama o poeta na solidão do seu amor.—Esta virgem tão bella, tão casta, tão pura, consagrou a Deus os seus dezesete annos!»