Estes desgostos da vida foram-o levando á sepultura; Lope de Vega succumbiu no auge da admiração. O seu funeral foi imponentissimo, como o de Miguel Angelo. Marcella, a intelligente filha do poeta, pediu para o cortejo passar pelo convento das Trinitarias descalças. No momento em que o préstito parou diante do mosteiro, viu-se apparecer por entre as grades avaras um semblante macerado por uma dôr lenta. Era Marcella chorando a morte do pae, talvez pungida pelo abandono em que o tinha deixado. Instantes depois, sumiu-se na escuridão da cella, e ninguem soube o que a levara na candura dos dezesete annos a abandonar seu pae na desconfortada velhice.{69}

A Ogiva sombria

Sem duvida, no tempo da mais bella flôr da architectura gotica, quando foi construida a cathedral de Colonia, ligava-se uma grande importancia a estes numeros symbolicos, porque a concepção ainda confusa das idéas racionaes, contenta-se facilmente com estes signaes exteriores.

HEGEL—Esthetica.

A Cathedral! a creação suprema da Edade média, em que a arte, pelo sentimento, em uma strophe de pedra, sabe concentrar o espirito radiante do christianismo, pela força audaciosa do symbolo! Ella representa a aspiração incessante da alma que se eleva para o céo; é ella como a Esposa dos Cantares, que espera em silencio a visita do Amado, e se veste de suas galas e realça de encantos. A curva suave da Ogiva imita uns párpados languidos, uma pupilla scismadora, enleiada n'aquelle extasis sensual do amor divino, que Thereza de Jesus sentia nos seus delirios mysticos; as flexas atrevidas,{70} atiradas para os áres, a linha a infinitivar-se, a perder-se no espaço, as agulhas bordadas, rendilhadas, são os cabellos dispersos, fluctuantes da donzellinha, que se assenta cansada de errar pelas brenhas e em volta da cabana dos pastores á busca do amado. A cupula altiva, representando aquelle momento em que a alma se desprende dos limos terrenos e se absorve toda na mystica unitiva, é o collo, que o poeta dos Cantares comparava á torre de marfim que olha para o occidente, e cuja magestade é similhante á da lua que se alevanta. Miguel Angelo chama tambem a uma egreja, nas effusões do seu pantheismo artistico, mia sposa.

Cada monumento antigo é como uma fronte veneranda, enrugada pelos seculos, animada por uma expressão profunda. Essa expressão é a linguagem dos évos, creada pelo espirito que não póde contemplar um facto, acreditar na sua existencia independentemente de uma idéa, de uma razão de ser que procura achar n'elle. É a fatalidade do enigma do sphinge. As Cathedraes goticas reunem quasi sempre a lenda piedosa com a lenda grotesca e diabolica; ellas são como a incerteza da alma que paira duvidosa entre a possessão e o extasis. Umas vezes, são os anjos que vêm de noite trazer de longe grandes blocos para a edificação da fabrica, que lavram a pedra, que alevantam o mosteiro. É a inspiração do anonymo nas obras grandiosas. Ás vezes, é o diabo, que com a mira em dilatar o seu imperio faz tudo, e{71} transporta para a construcção as melhores peças que rouba de outros monumentos, como uma columna do templo de Diana em Epheso para o templo de S. Zenão em Verona. A alma do architecto está retratada na sua concepção; receiando de suas forças para realisar o ideal sublime dos sentimentos do christianismo nos monolithos de marmore para que cria uma fórma, não teme evocar a potencia das trevas. Nas Ogivas escuras, soturnas das Cathedraes goticas, nos arabescos extravagantes das janellas esguias, nos monstros boqui-abertos que servem de goteiras, nos basiliscos informes dos pedestaes, reflecte-se esta alliança do mysticismo poetico com o mysticismo divino. Muitas vezes a Cathedral tem o mysterio de um symbolo que se mobilisa para exprimir os sentimentos da humanidade; com as invasões e descobrimentos maritimos ella toma a fórma de um navio voltado para o Oriente, d'onde lhe vem a luz; tambem imita uma cruz estendida ao longo, como na nossa maravilha de architectura, a Batalha, o poema da crença e do heroismo de um seculo.

Estamos em plena Edade média. A noite era caliginosa e tetrica; o coriscar frequente dos relampagos, o ribombo estridente dos trovões repercutindo-se distante, e o restrugir medonho da floresta, completavam as harmonias intraduziveis da tempestade. A alma, diante d'este espectaculo estupendo da natureza, sentia uma pressão que a fazia concentrar-se possuida do sentimento do infinito,{72} a que os homens que tudo indagam e submettem ás formulas metaphysicas chamam—o sublime.

Via-se através da escuridade absoluta das horas mortas um clarão incerto, como de alampada veladora. Seria algum discipulo de Flamel ou de Lullo absorvido pelos mysterios da alchimia, submettendo a materia, interrogando este Proteo eterno, que, a cada pergunta ostenta uma fórma diversa, e responde de mil modos differentes, sem que cheguem a surprehender-lhe o segredo de sua simplicidade? Seria um monge solitario enlevado na paz ignota da vigilia, procurando, no silencio da noite, elevar-se pelo coração até Deus? A luz jorrava da janella do aposento humilde e sombrio. Dentro, sentia-se o respirar cansado de um peito oppresso; a alampada espalhava em tôrno uma penumbra em que fluctuavam as visagens caprichosas de uma mente tresvariada, e vinha reflectir-se pallida, descorada sobre o rosto macilento, em que os gestos davam uma expressão incomprehensivel como os pensamentos que o agitam. Via-se n'aquelle rosto impressa a anciedade dos que penetram pela intuição a verdade de um problema insoluvel, e uma distracção leve lh'a fez esquecer. Sobre uma mesa estavam pergaminhos extensos, desenrolados, cobertos de linhas cabalisticas, com que se evocam os espiritos nocturnos, compassos e astrolabios, espheras e mappas.

Era alli que morava mestre Gerardo, o architecto{73} da Cathedral de Colonia. Estava contemplando o traçado da sua obra; a physionomia animava-se-lhe de quando em quando com uma luz, um resplendor vivo de transfiguração, como n'um extasis em que o ideal se deixava tocar, determinar em uma fórma só concebida pela mente do homem. Os cabellos andavam-lhe revoltos, espalhados sobre a fronte, como nas convulsões de uma sibylla quando entrevê o futuro, e sente o influxo vertiginoso que lhe dicta o vaticinio. Depois, uma sombra espessa, como de um desgosto repentino, veiu offuscar-lhe a serenidade que se lhe espelhára na fronte, em que os annos redobravam a magestade. N'isto, levou a mão á cabeça, como para suster o impulso de uma idéa que lhe occorrêra:

—A arte! a arte! é ella que me vem descobrir estas linhas que eu fixo no marmore, e que hão de ser a admiração dos seculos. Ella vem-me ensinar este segredo do ornato, a variedade disposta de modo, que leva o espirito á unidade do pensamento. A arte é uma religião que inspira tambem uma fé viva, ardente, intensa, e dá forças para affrontar a duvida, que cerca e punge o espirito creador. Um dia duvidaram de mim; não imaginavam que eu podesse levantar essa mole de pedras, uma Cathedral representando o vôo mystico da alma! Riram-se do plano da minha obra! Eu tenho pensado dias e noites, como na virgem eleita dos sonhos da mocidade. A Cathedral! ella apparece-me na phantasia, illuminada{74} por um sol fulgurante, trasbordando de musicas e harmonias suaves, perfumada de incenso, revestida de purpura, recamada de ouro, como a noiva que se veste para entrar no aposento do real esposo. Cada pedra que se vae dispondo, cada arco, cada pilastra erguida, é a ponta de um véo que se alevanta e me deixa vêl-a, sonhal-a, idealisal-a sobre essa realidade incompleta. É como a terra que vae apparecendo vagarosamente ao nauta cansado das tormentas, á medida que se esvaece o nevoeiro da madrugada. A Cathedral! a Cathedral! eu scismo e estremeço diante d'ella, quando a contemplo; sinto o delirio do artista grego apaixonado pela carnalidade que ia descobrindo o seu escôpro. Ella parece-me uma fada escondida, e que a arte me descobre o segredo para quebrar-lhe o encantamento, e mostral-a excelsa, bella, radiante elevando-se para o alto n'uma ascenção divina. Eu queria vêl-a suspensa nos ares, servindo-lhe as nuvens e os cumulos alvacentos de pedestal! Agora já me não inspira terror o desdem dos meus inimigos: descobri a ultima strophe do poema da minha vida, hei de confundil-os, fazel-os curvar-se adorando-a: é o zimborio, a cupula arrojada ás alturas, similhante ao vôo extatico da alma até á absorpção em Deus.

Havia n'estas palavras a vibração frenetica do delirio; mestre Gerardo de Colonia ficou silencioso como na prostração dos fortes impulsos que lhe déra a alegria. Os olhos brilhavam humedecidos,{75} scintilantes, exprimindo o regosijo intimo da contemplação da sua alma. E tornou a inclinar-se sobre a folha de pergaminho, a recompôr na mente as linhas que alli traçara n'um momento de inspiração. Depois, accometido por um novo accesso de enthusiasmo, arremessou de si o traçado; os olhos flammejaram coruscantes, parecia que estava doido: