—Eu quero mostrar assim, que essas Confrarias dos obreiros constructores de Strasburg, de Vienna, de Zurich e Magdeburg não podem disputar a proeminencia a Colonia. Todos os obreiros e artifices da Baixa-Allemanha hãode reconhecer em mim a supremacia do chefe. Que importa que Strasburg queira ser a séde da grande mestria? De que vale a homenagem prestada pelas confraternidades maçonicas da Alta-Allemanha, de uma parte de França, da Hesse, da Suabia, de Thuringe, da Franconia e da Baviera? O zimborio da Cathedral ha de erguer-se bem alto para a admiração de todos.

E calou-se de repente, como envergonhando-se diante de si mesmo, de se haver deixado possuir d'aquella vaidade. Depois continuou com dor:

—Quantos monumentos estupendos, quantos obeliscos gigantes, que assombram as edades, e que mostram o poder creador do homem, competindo com as creações de Deus, quantas maravilhas espalhadas pela superficie da terra, e que o architecto não quiz que se soubesse o seu nome, com uma abnegação sublime da gloria do{76} mundo! Eu que ainda não completei a minha obra, que a tenho aqui na cabeça, nem sei mesmo se chegarei a realisar este sonho, se terei a força de Atlante para suster nos ares a cupula audaciosa, eu, mesquinho, ufano-me, ensoberbeço-me! O genio não tem consciencia de si, não conhece o poder magico de que dispõe, por isso não se infatua. O que é a gloria do mundo ante a gloria celeste! Illusão que nunca chega a ter um momento só de realidade; é uma nuvem tenuissima que tolda o azul diaphano do empyreo. Para a alma do que preliba os encantos do céo, a gloria do mundo é uma tentação dolorosa, um martyrio incessante; porque então para ella a vida é como a luz vivida da alampada, que se consome no silencio da noite diante da imagem veneranda; assim, a alma procura envolver-se no olvido, no esquecimento de si para resplandecer mais pura.

Os legendarios estão cheios d'estas luctas violentas com os sentimentos mais profundos do coração do homem. Um dia Rubens estremeceu attonito diante de um quadro escondido na penumbra de um côro em uma egreja hespanhola; o quadro era um mysterio quasi impossivel de ser traduzido, divulgado pelas côres sobre a tella. Era a morte do justo. A morbida expressão do rosto macilento, uma auréola divina diffundindo-se em roda, a alma anciosa pelo jubilo do céo a exhalar-se docemente, como o ultimo raio do sol da tarde, e por sobre a cabeça os anjos{77} debruçando-se das alturas a contemplarem o monge na hora do passamento! Era uma transfiguração sublime, a idéa mais bella, a que resume todo o christianismo, revelada pela arte. Quando o grande pintor voltou a si d'aquelle extasis imprevisto, sentiu-se pequeno ao pé de uma creação tão perfeita. Perguntou ao monge que o conduzia, que pincel realisára tamanha obra, para confessar-se seu discipulo, e proclamal-o á admiração do mundo. O monge sentiu um estremecimento convulsivo, e respondeu-lhe apenas:—«Não é já do mundo!» e quando elle voltou á sua cella, juntou os pinceis, a palheta e lançou-os na corrente de um ribeiro que deslisava manso á falda da janella; e para esconder as lagrimas que ainda uma vez lhe escaldaram as faces retinctas na palidez da penitencia, foi procurar conforto na oração fervorosa. Como não teria tambem esta energia para luctar comsigo aquelle que escreveu na mudez da cella um livro de resignação e conforto, a Imitação de Christo, e que abnegou d'essa gloria para não tornal-o uma mentira!

Mestre Gerardo de Colonia ficára absorvido em uma meditação profunda. A tempestade continuava solemne e grandiosa na mudez da noite. Sentiu um leve rumor no aposento, que a contenção de espirito em que estava mal deixou perceber. Prestou ouvidos. Batiam á porta.

—Quem será? assim tão fóra de horas!—e correu os ferrolhos. Entrou uma figura alta, embuçada{78} em um gabinardo longo, o rosto assombreado pelas abas de um largo chapeirão.—Quem sois?—inquiriu o architecto, preoccupado ainda na sua abstracção.

—Sou um irmão da Confraria dos obreiros constructores de Strasburg;—tornou o desconhecido com uma voz cava.

—Entrae.

Sentaram-se, contemplando-se um instante silenciosos.

—A que vindes?