—O que me traz?—redarguiu o desconhecido com um tom de ironia acerba,—deves sabel-o melhor do que ninguem. Confias no zimborio da Cathedral de Colonia, para quereres assim submetter á tua supremacia a mestria central de Strasburg. É impossivel e chimerica essa tua loucura. As grandes lojas querem todas a independencia. Demais o zimborio, a obra que é o teu orgulho, não está prompta e talvez nunca a possas levar ao cabo.

Mestre Gerardo ficou espantado, hirto de raiva diante da audacia do desconhecido. Depois, volveu-lhe com uma severidade que lhe abafava a voz:

—Ainda sou architecto! e o zimborio ha de ser o primeiro a saudar no alto os alvores do sol quando se alevanta. Juro pela minha alma.

—Aposto em como te enganas!

—Aposto em como te hei de confundir, e a todas as mestrias rebeldes da Allemanha!—insistiu o architecto.{79}

—Pois bem! Eu comecei ha dias a obra do Aqueducto de Treves, e espero ainda vel-o acabado antes de teres prompta a Cathedral. Se assim não for, no dia em que deres por acabada a tua obra, despenho-me do Aqueducto. Tu precipitas-te tambem dos coruchéos da Cathedral se eu vier reclamar primeiro? Acceitas a aposta?

—Acceito.

—Juras?

—Juro.

A este instante ouviu-se longe o canto do gallo. O interlocutor mysterioso desappareceu subitamente ás primeiras notas do nuncio da alvorada. Foi então que o architecto reconheceu o—diabo; não quiz acreditar na realidade d'aquelle pesadello. O canto do gallo é celebrado nos hymnos da egreja, principalmente nos de Santo Ambrosio. Gallo canente vigilemus omnes. Elle symbolisa a voz interior que desperta a alma do somno da tentação; foi o canto do gallo que despertou tambem a Pedro no atrio do Pretorio, quando renegou o Mestre. No mysticismo poetico elle representa uma parte importante. A imaginação exaltada pelos sonhos da noite não podia deixar de revestil-o de mysterio. Já a Grecia lhe havia formado o mytho: é o castigo de Alectrião. A sombra que reclama de Hamlet uma vingança, o côro das feiticeiras de Macbeth, desapparecem com a magia d'esse canto.