Um dia o architecto subira á Cathedral; estava prestes a terminar-se a cupula. A alegria hallucinava-o.{80} Appareceu-lhe então uma cabeça disforme, rindo, confrangendo-se em esgares satanicos por entre as sombras profundas de uma ogiva. Disse-lhe que estava prompto o Aqueducto de Treves. Mestre Gerardo empallideceu e voltou o rosto á pressa! Aquella nova enterrava-o. Baixou os olhos como para suspender uma vertigem instantanea, fatalmente o relance mediu a altura da Cathedral; o angulo visual dilatou-se de modo que lhe produziu a attracção do abysmo. Resistiu debalde, vacillou um instante e despenhou-se por fim. Disseram que fôra a alegria explosiva de vêr a sua obra, que lhe causara o desvario que o precipitou.

Assim conseguiu estabelecer o seu predominio a Mestria central de Strasburg.{81}

As aguias do norte

(CONTO POLACO)

Harpa sacrosanta, orvalhada pelas lagrimas dos videntes, que repousam sobre ti frontes encanecidas, banhadas no pranto do captiveiro, quando á tarde abandonada na solidão do exilio, á beira da torrente, a aragem vespertina vinha gemer em tuas cordas, o cantico remoto era como o anceio de um coração oppresso, ai, que se perde confundido com o rojar das cadeias.

Inclina-te agora em meus braços, e vibra-me um canto de desespero, insoffrido, eterno, para acordar a turba, que dorme sob o peso das gargalheiras.

O vento livre saberá levar a toada longinqua, para achar ecco no peito dos desgraçados. Patria! patria! és a tunica inconsutil sobre que rodam os dados do infortunio.{82}

Polonia! tu és o peito exangue, ferido pela lança do incredulo. Podesse o teu sangue dar a vista ao que te fere com mão obstinada. Ao menos, que o teu ultimo arranco afaste para bem longe o bando dos abutres selvagens que pairam sobre ti, Prometheu, algemado em terra, mas, que ainda nas convulsões da agonia mostra a animação do fogo divino da liberdade.

Oh! mas o que vale ao poeta desterrado contemplar a ruina da patria! Para que ha de elle pedir á sua harpa um canto de angustia e saudade, se aquelles que o escutam e se sentem fortes para luctar com um esforço sobrehumano, são depois martyres do sublime enthusiasmo?

Que tristeza profunda o lembrar-me que o meu poema a Tentação, exaltando os estudantes da Lithuania para sacudirem os tyrannos, fez com que os oppressores arrojassem para os steppes e minas da Siberia a flôr da mocidade da Polonia! Pobre Karl; ainda tenho aqui a carta em que elle me conta os trabalhos da jornada para o desterro: