Reinava um silencio de morte. Já sabiamos a sorte que nos esperava. Depois vieram lançar-nos as cadeias pesadas, as gargalheiras infamantes da escravidão, ultrajando com risos aquelle sentimento puro que nos dava constancia para o martyrio. Era impossivel resistir; todo o esforço seria inutil. Deixei passivamente algemarem-me. Um olhar firme de Hedwige inspirou-me uma resignação indizivel. Não sei que apparencia divina, que irradiação sublime, etherea, envolvêra o rosto da minha amada, que os soldados não se atreviam a aproximar-se. Seria esse terror, que fazia cair em terra, fulminados, os que tocavam na Arca sacrosanta? Na serenidade altiva que ella mostrava n'este instante, conheci-lhe uma resolução extrema; Hedwige queria tambem ser prisioneira, para soffrer commigo as dores do desterro. Ella lançou mão do poema que estava sobre a mesa, e começou a recitar algumas das estrophes mais arrebatadas, com uma voz prophetica, no tom mysterioso de uma sibylla. A magia d'aquella voz sentida prendia; ficaram immoveis, quedos, escutando-a:
Fragmentos de uma Elegia polaca
—«E lentamente, mui lentamente, por detraz do Homem-Deus, avança deslumbrante de belleza{87} e sem vestigios de morte a minha dilecta Polonia.—Ella pára sobre os umbraes da Sião promettida a todos os povos, e—d'estas alturas sagradas sua voz retumba, dirigindo-se ás nações reunidas muito longe, lá em baixo, nos términos do espaço.
«A mim, a mim, oh vós, raças fraternas! A ultima lucta do derradeiro combate terminou;—os embustes das traições e das mentiras terrestres estão destruidos.—Subi commigo para o reino da paz.»—E o côro das nações lhe responde: «Benção e gloria a ti, oh Polonia! porque ainda que tenhamos todas soffrido,—tu supportaste mais tormentos que nenhuma de nós,—Pela enormidade das injustiças accumuladas sobre ti, conservavas constantemente o inimigo debaixo do raio de Deus!—No transe do martyrio, tiravas de teu coração uma vida mais energica que a dos teus oppressores,—e pelo teu sacrificio nos salvaste.—Benção e gloria a ti, oh Polonia!»
Oh! quantas vezes por uma noite sombria do outomno, a voz de minha mãe ou de algum antepassado sáe do tumulo, e chega até mim para me fallar do futuro.—Eis que a este ruido mysterioso, visões estranhas me apparecem.—O canto de triumpho soltando-se do peito de milhões de homens, resôa em derredor.—Os vencedores passam em phalanges innumeraveis,—eu vejo as brancas, resplandecentes figuras das irmãs e dos irmãos libertados da escravidão;—a centelha da immortalidade faisca de todas as frontes.—Mesmo{88} sem azas, elles vogam no ár, como se fossem alados; sem corôas brilham como se fossem coroados.—E eu mesmo prosigo no meio de todos, e me sinto em uma especie de céo desconhecido, antecipado.
E, quem sabe? talvez que a prophecia dos meus sonhos se realisasse já sobre o tumulo da Polonia! E não havia senão eu, eu cadaver, que faltava entre os resuscitados! Oh, através d'estas grades e d'estes muros que me fecham como as taboas de um feretro, o meu espirito se illumina e se expande ao longe, transpondo o tempo e o espaço!—Sim, eu vejo: além, por toda a parte myriades de estrellas e flores;—o mundo regenerado celebra suas nupcias com a joven liberdade!—Na aresta dos Alpes, no cimo dos Carpathos, o céo resplandece com os raios da mesma aurora,—e todos os povos unidos, confundidos, parecem formar um só oceano, por sobre o qual é levado o espirito de Deus[[1]].»
Á medida que ia proseguindo no canto, Hedwige, como a Sulamite dos Cantares, comparada á torre que olha para o occidente, parecia suspensa; o semblante com a graça diaphana de um seraphim. N'aquella elevação surprehendente, a commoção embaraçou-lhe a voz; não pôde fallar; ficou hirta, livida, como na concentração violenta do extasis. Era o genio da Polonia incarnado{89} em uma mulher que soffria. Hedwige ficou silenciosa; nem um queixume, uma lagrima sequer, quando lhe roxearam os pulsos. Quando tornou a si, e conheceu que ia compartilhar commigo a mesma sorte, sorriu-se, com a expressão divina da alegria dolorosa e da resignação.
Dias depois leram-nos a sentença. Doze annos de desterro e trabalhos na Siberia. Hedwige escutou impassivel. Custava-me tanto vel-a soffrer em silencio; ella fazia um esforço inaudito para não vergar com as dores excessivas; não queria redobrar o meu soffrimento. Oh meu Poeta! foi então que me convenci de que o homem é o lobo do homem; peior ainda que o lobo cerval, porque espia os segredos da nossa alma, e antes que nos inflijam as sevicias do corpo, torturam-nos o espirito, insultando os sentimentos mais recatados e santos que nos dão coragem nos desalentos da vida.
Partimos todos na carroça dos desterrados, um kibitka peior que o tormento inventado para matar o integerrimo Atilio. As rajadas do inverno eram cortantes, e tiravam-nos todo o vigor para avançar; depois, vieram amontoando-se os gelos, e nos obrigaram a proseguir a pé; a desolação dos steppes, por onde passavamos, despertava-nos não sei que sympathia, talvez porque eram uma similhança visivel do abandono e ruinas em que estavam nossas almas.
Hedwige, delicada e fragil não podia caminhar mais, via-a desmaiar pouco a pouco; a lividez{90} do sepulchro no semblante desbotado! Parecia-me a flor mimosa, emmurchecida com as geadas da noite. As pancadas do knut, um látego formado de tiras de couro crú e rosetas de ferro, com que a verberavam para adiantar caminho, esgotaram-lhe as forças. Eu não sei que haja palavras humanas para exprimir a dor e a raiva que senti n'esse instante, porque o coração do homem nunca soffreu tanto, para descobrir uma expressão para este infinito da angustia. Hedwige nem se atrevia a olhar para mim; depois vi-a cair transida de frio e cansaço; esgotára o ultimo esforço. Quizeram deixal-a sepultada entre o gelo. A noite vinha a fechar-se asperrima, atroz; eu não podia sequer lembrar-me que o corpo da minha amada ia ser em breve pasto dos abutres. Via-me tambem já sem forças. Pedi para leval-a aos meus hombros.